11.10.2009

A mais perfeita tradução


RONIWALTER JATOBÁ, pioneiro no Brasil em tratar do proletariado, ganha antologia de contos

Marcio Renato dos Santos • Curitiba – PR Rascunho 115, novembro de 2009


Roniwalter Jatobá, desde 1976 a publicar livros, foi o pioneiro no Brasil a problematizar literariamente o proletariado. O escritor mineiro, que viveu na Bahia, hoje radicado em São Paulo, teve olhos para ver, percepção para sentir, raciocínio para concatenar e disciplina para escrever, e reescrever, a respeito daqueles que, em geral, não passam de estatística, mero número.
Jatobá deu voz aos que, mesmo que fossem convocados, possivelmente não teriam discurso.
Os contos, em especial os selecionados por Luiz Ruffato para a edição destes Contos antológicos, funcionam individualmente e também em conjunto.
Jatobá, com um olho na realidade, onde buscou o material, matéria-prima para a ficção, e outro olho na tradição, leitor que sempre foi (e é) do legado literário, enfim, Jatobá conseguiu elaborar uma possível síntese do que pode ser a trajetória daqueles que estão condenados a viver: ele fala, e escreve sobre, os pobres que, em sua maioria, migraram de rincões brasileiros rumo a grandes centros.
Os personagens elaborados por esse mineiro-universal têm apenas nomes, nenhum sobrenome. Eles, os personagens, são muitos, são Zélia, Jacinto, Zefim, Santina, Tonico, Zuleide, Germano, Damião etc. Todos, sem exceção, funcionam como mão-de-obra barata. Não tiveram oportunidade de estudar. Dedicam, então, pelo menos, oito horas por dia a trabalhos embrutecedores, dentro de montadoras de automóveis, fábricas, empresas, lojas, casas (são domésticas, contínuos, moços e moças de recado), todos enfim atuam em funções (isso quando conseguem um emprego) em que os humanos não podem imprimir, registrar, as suas marcas, pegadas, de humanos que são.

Outra Paulicéia
O conto A mão esquerda, um clássico, e antológico, conto de Roniwalter, diz muito sobre a visão de mundo dele, e revela o ponto central de seu projeto literário. Natanael, filho de Elias e Marta, o protagonista da breve narrativa, nasceu em uma pequena e interiorana cidade e migrou rumo a São Paulo, palco de muitos dos contos de Jatobá. Conseguiu um emprego que garante apenas o salário para pagar as despesas e necessidades mínimas. Ele perderá dedos de uma das mãos durante a jornada de trabalho. Natanael escreve e envia cartas para a família fantasiando que, na grande cidade, tem uma vida digna, mas a sua realidade não passa de inferno permanente.
Os personagens da literatura de Jatobá, Natanael de A mão esquerda é apenas um deles, trocam a energia por salários indignos, pois não têm outra opção. Nenhum desses seres ficcionais, a exemplo de muitos da realidade, consegue nem jamais conseguirá economizar dinheiro para investir em qualquer projeto, bem pessoal ou patrimônio. As necessidades mínimas já consomem tudo o que eles recebem. Comida, transporte e inesperado "ceifam" todo o "tudo" que eles ganham.
Jatobá inventou uma ficção, mais do que particular, necessária, porque reflete o andar de baixo, "misteriosamente" quase invisível na malha literária brasileira. O texto não é panfletário, e bem que poderia ser, nem faz denúncia, e isso seria perfeitamente compreensível, e necessário. Antes, trata-se de arte.
Os personagens, condenados à vida, como o próprio autor escreve, estão inseridos em ambiente e contexto inóspitos. Nasceram pobres, não terão direito a estudo, nem a relações com pessoas que poderão abrir portas e oferecer oportunidades. Esses seres serão obrigados a morar em casas minúsculas, na periferia, distantes do local de trabalho. Sonadas, como muitas delas aparecem na ficção de Jatobá, atravessarão o dia com sono, pois não podem deixar o corpo deitado por muito tempo em cima de um colchão de péssima qualidade, sobre uma cama, em um subúrbio qualquer.
O receio de vir a ser demitido, que é uma questão constante para quem faz parte de classe pouco favorecida economicamente falando, é tema de mais de um conto. Jatobá conseguiu captar nuances de quem faz parte dessas castas condenadas à vida.
A ficção de Jatobá traduz, para o leitor, a sensação daqueles para quem viver é apenas sofrer, passar a maior parte da existência dentro de fábricas, barracões, ônibus, com apenas um dia de folga por semana, sem opção de lazer, o bar da rua do bairro, a eterna tentativa de ganhar o prêmio da loteria, para mudar a sorte, o azar, que é ter nascido pobre em um país como o Brasil, onde poucos desfrutam (por quanto tempo ainda?) de um bem-estar que não é bem nem estar.

o autor
RONIWALTER JATOBÁ nasceu em Campanário (MG), em 1949. Aos dez anos, mudou-se para o sertão da Bahia. Na década de 70, já vivendo no estado de São Paulo, trabalhou como operário e jornalista. É autor de Sabor de química, O jovem Che Guevara, O jovem JK e Paragens, entre outros.


trecho
• Contos antológicos
"De noite, eu vigiando, o frio entrando no corpo, doendo por dentro da farda e no alojamento o roncar de cem bocas só esperando o chamado das quatro horas. Os caminhões encostados roncando, se aquecendo, o motorista lá dentro, de vidros fechados só esperando os homens subirem na carroceria pra começar a viagem, uns pra mais perto, outros pra mais longe, pra todos o mesmo serviço. A cidade se despertando e já encontrando os homens seguros em cavadores, enxadas, pás, quebrando o asfalto, arrancando a terra das ruas, limpando bueiros." (do conto Alojamento)

Contos antológicos
Roniwalter Jatobá
Org.: Luiz Ruffato
Nova Alexandria
176 págs.

10.12.2009

Relatos da condição humana


Antologias de Roniwalter Jatobá e Jorge Miguel Marinho apresentam tema em comum
Henrique Marques - Samyn*
Jornal do Brasil, 10 de outubro de 2009



A Nova Alexandria tem publicado, em sua coleção Obras Antológicas, coletâneas de alguns autores representativos. Os volumes editados até o momento são assinados por nomes como Silviano Santiago, Domingos Pellegrini e Solano Trindade – este, o único poeta numa série de livros que vem privilegiando a narrativa curta. Seguindo essa tendência, dois reconhecidos cultores do gênero têm seus textos reunidos em antologias incorporadas à coleção: Roniwalter Jatobá e Jorge Miguel Marinho.
Mineiro radicado em São Paulo desde 1970, Jatobá inicia sua trajetória literária com Sabor de química (1977); é ele quem “praticamente instaura a literatura proletária brasileira”, como enfatiza Luiz Ruffato, organizador e prefaciador dos Contos antológicos de Roniwalter Jatobá. Já os textos de Jorge Miguel Marinho, carioca também radicado em São Paulo que alcança destaque sobretudo a partir de Escarcéu dos corpos (1984), são comumente aproximados da literatura fantástica – rótulo que, ainda que não de todo improcedente, pode suscitar leituras reducionistas que ofuscam a riqueza lírica e temática de sua obra. De fato, uma leitura mais aprofundada revela que as produções literárias de Jatobá e Marinho não são propriamente opostas – e têm em comum o essencial da melhor literatura.
O texto de Roniwalter Jatobá, construído predominantemente por frases curtas, reflete na forma a matéria de seu lirismo: assim como sua dicção é algo fragmentária, repleta de rupturas que acentuam o tom seco e duro que perpassa a narrativa, os contos enfocam vidas quase sempre despedaçadas pela pobreza, esmagadas pelo árduo trabalho que reduz as pessoas à sua força produtiva. É justamente por construir sua obra a partir desse cenário tão asfixiante, mas sem ceder à opção de tecer uma narrativa que, aderindo a ele, reduza-se a espelhá-lo – o que decerto produziria o gesto pleonástico que, embora denunciador, tende ao estereótipo – que a literatura de Roniwalter Jatobá é prenhe de humanismo: seus personagens sempre resistem, de algum modo, à reificação; são figuras que, conquanto dilaceradas, orientam-se pela busca de uma dignidade que, embora não raro pareça inalcançável, sabem fazer parte de si. A imagem do trabalhador pobre, deslocado em meio à massa urbana, é representativa do tipo de questionamento que motiva o escritor: embora seja ele, o trabalhador, um dos principais responsáveis por mover a colossal máquina urbana, essa em reação o esmaga e asfixia, reduzindo-o a uma espécie de fantasma – a uma criatura anômala e anônima à qual se impõe o desafio de resgatar sua própria humanidade. As muitas formas dessa luta, não raro trágica, constituem a matéria bruta da qual Roniwalter Jatobá extrai o lirismo de seu contos, cuja qualidade é bem representada pela seleção de Ruffato.
A compaixão é uma marca do texto de Jatobá

À seca dicção de Jatobá contrapõe-se o texto de Jorge Miguel Marinho: encontramos um descritivismo que, não raro, remete ao barroco; excesso que em momento algum tangencia o preciosismo, servindo por outro lado a propósitos estéticos muito definidos. O mundo que emerge nos contos de Marinho, como demonstram os presentes em seus Contos antológicos, usualmente não obedece aos parâmetros naturalistas predominantes na literatura brasileira; verifica-se frequentemente um desvio que, ao instaurar o fantástico, desmascara arbitrariedades e mecanismos de poder que subrepticiamente operam no cotidiano. Nem sempre ressaltado, esse aspecto da obra de Jorge Miguel Marinho revela um autor fortemente político; em sua literatura, o elemento fantástico não surge como um fim, mas como um instrumento empregado para a construção de alegorias. Em outras palavras: no texto de Marinho, a fantasia não constitui uma negação do real, sendo de fato uma forma de reafirmá-lo em seus contrastes – sobretudo no que tange à sociedade, cujas fraturas são assim denunciadas. Perceba-se, a propósito, que essa é uma literatura em que o “desviante” – ou seja, aquele que sofre a ação do fantástico – comumente o é num sentido social, seja por sua posição à margem, seja pelo desafio que representa a algum tipo de norma; desse modo, a inversão do mundo apenas explicita uma inversão da ordem que a antecede.
Nenhum tour de force é, portanto, necessário para aproximar a obra de Roniwalter Jatobá dos textos de Jorge Miguel Marinho. Embora, à primeira vista, de um cotejo entre suas escritas possam emergir apenas as diferenças, o que os aproxima é algo muito mais fundamental: a profunda empatia com que se dedicam a tematizar a condição humana. A compaixão do texto de Marinho surge também na obra de Jatobá; as marginais figuras que povoam as páginas de Jatobá fazem-se igualmente presentes nos contos de Marinho – semelhanças que decorrem de uma preocupação humanista seminal em ambas as obras. Se, em última instância, é esse o tema de toda a grande literatura, não há dúvidas de que estamos aqui diante de dois grandes escritores.
* Henrique Marques - Samyn é doutorando em literatura comparada e autorde Esparsa poética (poemas)

9.26.2009

Jatobá, para crianças de todos os tempos


Assis Ângelo

Adorei. Há tempo eu não lia um livro infanto-juvenil, isto é, dirigido ao público infanto-juvenil, tão bonito quanto esse “Viagem ao Outro Lado do Mundo”, chancelado pela Editora Positivo e de autoria do mineiro de Campanário nascido em 49 Roniwalter Jatobá, também autor de livros importantes para a bibliografia brasileira, como A Crise do Regime Militar (Ática; 1997), O Jovem Luiz Gonzaga (Nova Alexandria; 2009) e tantos.Roniwalter é uma antena aguda e sensibilíssima do Brasil. Sua sensibilidade ajuda a nos mostrar a grandeza deste País, seja através de seus contos desenvolvidos quase sempre com base no Real, seja através das histórias que busca sob o tapete da poeira do tempo a realidade do Brasil.No que faz, Roniwalter é dos poucos.Ele sabe o que diz.E por saber o que diz Roniwalter conta nesse novo livro uma história simples para um público simples e em formação. O autor fala de São Paulo, a cidade. O autor, madeira de lei, fala do Metrô da cidade de São Paulo, do seu ruge-ruge e do ruge-ruge da cidade grande, e não de uma cidade grande qualquer, mas da 5ª maior cidade do mundo, que é São Paulo.“Viagem ao Outro Lado do Mundo” se desenvolve de maneira tão natural; tão natural que fica, no correr da leitura, difícil até de acreditar que uma história tão banal, comum, tenha sido escrita por um autor do tamanho de Roniwalter.Humilde, o grande escritor Roniwalter Jatobá desce do pedestal para contar o caso de um menino que é premiado pelo pai para conhecer São Paulo. O menino dorme pouco, esperando o dia chegar.A mãe prepara os detalhes, roupas etc.E o menino se perde, quando chega a Sampa. E se perde logo no Metrô, que hoje transporta 3,5 milhões de pessoas e muito mais de pensamentos, sonhos e dramas.Como é bonito o novo livro de Roniwalter!O autor mostra a solidariedade dos meninos de rua...Chega! Não vou falar mais. Saiam correndo, vão comprar ”Viagem ao Outro Lado do Mundo”. Presenteiem-no.Vale a pena.

9.05.2009

FICÇÃO BRASILEIRA


CONTOS ANTOLÓGICOS

Roniwalter Jatobá é visto, pela crítica e por seus pares, como o instaurador de uma real literatura proletária brasileira. Por "real" deve ser entendido: fortemente lírica, mas sem idealização nem romantismo. Todos os seus livros tratam, sem afetação, do trabalho e do trabalhador, temas pouco frequentes em nossa prosa.
Em "Contos Antológicos", livro organizado por Luiz Ruffa­to, estão 23 narrativas do autor, sobre essas criaturas -- zés, marias e joões, geralmente imigrantes e operários -- "conde­nadas à vida". São contos cheios de fuligem, frustração, sau­dade e remorso.
Na obra de Roniwalter Jatobá, a linguagem literária mimeti­za a fala proletária, iletrada, econômica. O perigo disso é a que­da na superficialidade e no maniqueísmo. Ou, pior: no sentimentalismo panfletário. Na maior parte do tempo, Roniwalter soube escapar dessa ardilosa armadilha. (NELSON DE OLIVEIRA)

AUTOR Roniwalter Jatobá
ORGANIZAÇÃO Luiz Ruffato
EDITORA Nova Alexandria
QUANTO R$ 36 (176 págs.)
AVALIAÇÃO bom

Fonte: Guia da Folha (Folha de S. Paulo, 28 de agosto de 2009).

Transformação poética


Luiz Ruffato



Comentando a obra de Oswaldo França Júnior, João Luiz Lafetá observou que o autor mineiro valorizava, em seus romances, o trabalho, “coisa rara numa literatura que quase sempre o desprezou e evitou representá-lo”[1]. Curiosa questão o crítico paulista levantou. Se nos debruçarmos sobre a produção ficcional brasileira ao longo do tempo, poucas vezes vamos flagrar personagens exercendo algum tipo de atividade laborativa. Em geral, os escritores nacionais, bem-nascidos, satisfazem no próprio âmbito da classe média as suas necessidades de criação – nicho onde o trabalho nem sempre é bem visto. Quando extrapolam os seus horizontes, caem na tentação ou de idealizar o trabalhador, exibindo a exploração de que é vítima para combater politicamente sua opressão, ou de romantizar a figura do malandro ou do bandido, como pretenso contraponto rebelde às injustiças da sociedade, conforme emenda o próprio Lafetá.
Isso porque, talvez, a literatura de boa qualidade exija uma dose mínima de veracidade – e são escassos os autores brasileiros conhecedores das mazelas da classe trabalhadora. Roniwalter Jatobá, mineiro de Campanário, radicado em São Paulo desde 1970, é uma dessas exceções. Imigrante, foi motorista de caminhão, operário metalúrgico e gráfico, antes de se formar em jornalismo. A questão do trabalho ocupa o centro de suas preocupações, desde a estréia em 1976, com Sabor de Química, até o recente Paragens, de 2004, passando pela importantíssima antologia Trabalhadores do Brasil, de 1998, por ele organizada. Mas, vivência apenas não faz boa literatura. O que torna Jatobá um grande escritor é sua capacidade de transformar a matéria bruta da vida em Arte. Ou, como melhor traduz a crítica literária Cecília Almeida Salles: “o ato criador manipula a vida em uma permanente transformação poética para a construção da obra. A originalidade da construção encontra-se na unicidade da transformação: as combinações são singulares”[2].
Jatobá praticamente instaura a literatura proletária brasileira – e sintomaticamente conta com escassos herdeiros. Antes, o trabalhador urbano pode ser entrevisto em um que outro romance – O cortiço, de Aluísio Azevedo, de 1890, Os corumbas, de Amando Fontes, de 1933, O moleque Ricardo, de José Lins do Rego, de 1935 – ou em um que outro conto – de autores como Mário de Andrade e Alcântara Machado. Contemporaneamente, alguns poucos se aventuraram no tema. Mas, sem dúvida, Jatobá é pioneiro ao alicerçar no operário a sua obra. Embora o Brasil tenha sido essencialmente rural até a década de 50, desde a virada do século XIX para o XX as cidades mais importantes contavam com estabelecimentos industriais – haja visto que a primeira greve geral foi convocado ainda em 1906, pelo à época forte movimento anarquista. Entretanto, apenas no final da década de 70 o proletariado ganhará espaço na literatura, não mais como símbolo idealizado, mas como personagem complexo e veraz.
Pelas páginas dos sete livros de Jatobá (três coletâneas de contos, três novelas e um romance), obsessivamente reescritas, desfila a brutal história recente do país, de industrialização a todo custo. A partir da década de 50, quando o presidente Juscelino Kubitschek implementa o “desenvolvimentismo” – “cinqüenta anos em cinco” – inicia-se um fluxo migratório sem precedentes, na direção Norte-Sul, que irá se acirrar nas décadas de 60 e 70, e que só agora começa a se amainar. Milhões de pessoas empurradas, de uma hora para outra, dos confins do sertão para servir de mão-de-obra barata à indústria de construção e de transformação de São Paulo. Pressionados ora pela seca atávica do Nordeste, ora pela miséria ingente de Minas Gerais, ora pela falta de perspectivas nos outros estados, os migrantes trocavam, do dia para a noite, o espaço amplo pela exigüidade, a economia de subsistência pelo salário, o imaginário rural pelo urbano. São os frutos desse rompimento brusco que emergem da ficção de Jatobá.
Mas, aqui o que diferencia o autor de um historiador, um antropólogo ou um sociólogo: o escritor, demiurgicamente, insufla alma aos personagens, cinzela seus rostos, dá-lhes identidade, arranca-os do anonimato a que foram relegados. E essa construção se faz através do alinhavamento de um estilo próprio, reconhecível nas várias camadas das reescrituras a que submete seus livros. A inquietação formal de Jatobá, que de certa maneira reflete sua inquietude com as coisas do mundo, pode ser observada, por exemplo, na reapropriação que faz de suas histórias. Só a título de exemplo, a pequena novela “Paragens”, seu mais recente título[3], é a reelaboração de um conto, “Via sacra”, publicado originalmente em 1976 e que ainda aparece na terceira edição de Sabor de química[4]. A comparação entre os dois textos dá-nos uma pálida idéia do rigoroso processo de criação de Jatobá, que não se satisfaz com a mera transposição do real para a ficção, mas que, ao tentar apreendê-lo, percebe a sua precariedade. O mesmo método pode ser reconhecido no conto “A mão esquerda”, de 1978, que contém a semente da novela Tiziu, de 1994. Ou ainda em “Margem”, que, dividido, inicialmente, em quatro partes, costurava a edição original de Ciriaco Martins e outras histórias, e que, a partir de Sabor de química, constrói-se em fragmentos de uma mesma narrativa[5].
E reescrever, para Jatobá, significa buscar uma expressão própria, capaz de traduzir a realidade que o incomoda. Fosse outro autor, talvez chafurdasse no preconceito – que transborda das páginas dos ficcionistas brasileiros – de retratar a miséria social utilizando-se de uma linguagem igualmente pobre, como se, agindo assim, aproximasse o leitor da realidade que pretende expor. Nos contos de Jatobá há uma perfeita simbiose entre fundo e forma – a história do proletariado se constrói sem reducionismo, sem afetação[6]. A um leitor mais atento deverá aflorar a força da narrativa construída em moldes bíblicos, onde a denúncia ou a lamentação não se encontra nunca dissociada da poesia. Porque Jatobá nos explicita que, por mais cinza a vida suburbana, todos nós, por sermos humanos, perseguimos, ao fim e ao cabo, a mesma coisa: a felicidade. E esta se encontra no horizonte do improvável.
Uma palavra ainda sobre a organização desse livro. Misturados, aqui encontram-se todos os contos de Crônicas da vida operária e todos os da segunda parte[7] da terceira edição de Sabor de química (que basicamente reúne as narrativas de Crônicas nordestinas/Sabor de química, de 1976 e Ciriaco Martins e outras histórias, de 1977), menos “Via sacra”, que fecha o volume, bastante modificado, com o título de “Paragens”. Da chegada do imigrante (mineiro?, nordestino?, pouco importa) ao subúrbio industrial de São Paulo, o peito explodindo em esperanças, a uma espécie de autoprestação-de-contas, quarenta anos depois, dentro de um trem de metrô, a história de um projeto fracassado – e se se frustra a expectativa pessoal, é a própria idéia de nação que naufraga.


[1] In “O romance atual” apud A dimensão da noite. São Paulo, Duas Cidades/Editora 34, pág. 251.
[2] In Gesto inacabado. São Paulo, Fapesp/Annablume, 1998, pág. 89
[3] Paragens reúne três novelas de Roniwalter Jatobá: “Pássaro selvagem”, “Paragens” e “Tiziu” e foi publicado pela Boitempo Editorial, São Paulo, 2004. “Pássaro selvagem” foi editado originalmente em 1985 e “Tiziu” em 1994.
[4] Belo Horizonte, Oficina de Livros, 1991.
[5] V. Ciriaco Martins e outras histórias. São Paulo, Alfa-Ômega, 1977.
[6] Rubem Mauro Machado, comentando Crônicas da vida operária, denuncia sua surpresa, ao afirmar que Jatobá “consegue uma simbiose tão perfeita entre a língua oral e a língua literária que o leitor menos avisado pode não se dar conta que ‘na verdade ninguém fala assim” (in “Roniwalter Jatobá: enfim, literatura proletária”. Suplemento da Tribuna – Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 30/09 e 01/10/1978, pág. 6)
[7] Da primeira parte constam histórias ambientadas no universo rural e preferi, para esta edição, concentrar a atenção no imaginário suburbano.

9.04.2009

Pastores de Virgílio


Autor de mais de 50 livros, entre poesia, romances, novelas, contos, ensaios, entrevistas literárias, crônicas e ainda peças de teatro, o poeta Álvaro Alves de Faria, um dos nomes mais significativos da Geração 60 da Poesia Brasileira, apresenta no livro Pastores de Virgílio (Escrituras Editora) o pensamento de poetas e escritores – 38 brasileiros e dois portugueses –, o que representa um documento de época da literatura deste país.

Trata-se de mais uma contribuição de um poeta que, a vida inteira, dedicou-se ao jornalismo cultural e à crítica literária, em defesa do livro e do autor nacional que nem sempre tem o espaço merecido. Por esse trabalho, principalmente honesto, Álvaro Alves de Faria recebeu por duas vezes o Prêmio Jabuti de Imprensa, da Câmara Brasileira do Livro (CBL), em 1976 e 1983, e ainda, pelo mesmo motivo, dois prêmios especiais da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 1988 e 1989.

Este Pastores de Virgílio representa um documento importante porque quem fala sobre ficção e poesia são os próprios escritores e poetas, discorrendo sobre seu universo literário e a arte de sua criação. Em suma: o autor faz seu próprio retrato em que revela, também, o ser humano diante de um mundo conturbado e de um país que nem sempre prima pelos melhores caminhos, muito pelo contrário. Um livro de indignações diante das inversões de valores em um meio que quase nada tem de glamour, como é de se pensar.

O novo livro de Álvaro Alves de Faria é composto de resenhas e entrevistas com Affonso Romano de Sant’Anna, Alberto Beuttenmüller, Alexei Bueno, Antonio Carlos Secchin, Astrid Cabral, Carlos Felipe Moisés, Carlos Herculano Lopes, Carlos Nejar, Carpinejar, Celso de Alencar, Cyro de Mattos, Dalila Teles Veras, Deonísio da Silva, Edla van Steen, Ferreira Gullar, Flora Figueiredo, Glauco Matoso, Helena Armond, João de Jesus Paes Loureiro, José Nêumanne, José Paulo Paes, Lília A. Pereira da Silva, Luiz Roberto Guedes, Marco Lucchesi, Mariana Ianelli, Marina Colasanti, Miguel Jorge, Miguel Sanches Neto, Moacir Amâncio, Neide Archanjo, Péricles Prade, Raimundo Gadelha, Raquel Naveira, Roberto Piva, Ronaldo Cagiano, Roniwalter Jatobá, Soares Feitosa, Ulisses Tavares, e os poetas portugueses Vasco Graça Moura e Ana Marques Gastão.
Sobre o autor:
Álvaro Alves de Faria nasceu na cidade de São Paulo. É jornalista, poeta e escritor. Jardineiro aos 12 anos, operário de fábrica aos 14, contínuo do Correio Paulistano aos 16. Iniciou sua carreira no Jornalismo aos 18 anos. Formação em Sociologia e Política e Língua e Literatura Portuguesa, com Mestrado em Comunicação Social. Faz parte da Geração 60 de Poetas de São Paulo. Autor de mais de 50 livros, entre romances, ensaios, livros de entrevistas literárias, organização de antologias, crônicas, mas é fundamentalmente poeta. Participa de aproximadamente 70 antologias de poesia e contos no Brasil e no exterior. É também autor de três peças de teatro. Uma delas, “Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo”, recebeu o Prêmio Anchieta para Teatro, nos anos 1970, na época um das láureas mais importantes do Teatro brasileiro. A peça foi proibida de ser encenada e ficou sob censura no regime militar por seis anos. Tem poemas traduzidos para o inglês, francês, japonês, servo-croata, italiano e espanhol. Como jornalista da área cultural, recebeu por duas vezes o Prêmio Jabuti de Imprensa (1976/1983) e por duas vezes, também, o Prêmio Especial da APCA (1988/1989), pelo trabalho realizado em favor do livro, em jornais, revistas, rádio e televisão. No início dos anos 1970, criou, no Diário de S. Paulo, dos Diários e Emissoras Associados, o suplemento cultural “Jornal de Domingo”, que editou por 12 anos, até a extinção do jornal, em 1983. Foi o iniciador do movimento de recitais públicos de poesia em São Paulo, quando lançou o livro O Sermão do Viaduto em pleno Viaduto do Chá, em meados dos anos 1960. Por declamar poemas no local, com microfone e alto-falantes, foi preso cinco vezes pelo DOPS, acusado de subversivo. Os recitais foram proibidos em agosto de 1966. Seu livro Trajetória Poética, reunião de toda sua poesia até 2003, recebeu o Prêmio da APCA como o melhor livro de poesia desse ano. Outro livro, Babel, com poemas sobre sua postura em relação à própria poesia, recebeu o prêmio de melhor livro de poesia do ano da Academia Paulista de Letras em 2008. É detentor de praticamente todos os grandes prêmios literários do Brasil. Tem sete livros de poesia publicados em Portugal. Participou do X Encontro Iberoamericano de Poetas, em Salamanca, na Espanha, em 2007, evento dedicado ao Brasil. Foi homenageado com a publicação de uma antologia de seus poemas, com mais de 300 páginas, com seleção, tradução para o espanhol e ensaio do poeta peruano-espanhol Alfredo Perez Alencant, professor de Direito da Universidade de Salamanca.
Pastores de Virgílio
A literatura na voz de seus poetas e escritores

de
Álvaro Alves de Faria


Lançamento:
Quinta-feira, 10 de setembro de 2009
das 18h30 às 21h30
Livraria Martins Fontes
Av. Paulista, 509 - Cerqueira César - São Paulo/SP
Tel.: (11) 2167-9900
(Em frente à estação Brigadeiro do metrô. Convênio com estacionamento -
Rua Manoel da Nóbrega, 88 e 95 - primeira hora gratuita)

8.25.2009

A vida, essencialmente vida

Noel Arantes*


Não repisarei aqui a polêmica sobre o manto dourado do rei da Abissínia... Muitos crêem que ele seja bem mais reluzente do que o do rei da Pérsia. E olha que, ainda que não consigam convencer aqueles que pensam o contrário, são capazes de dar uma perna pela causa. Afinal, o que encontra mais adeptos do que a rivalidade de méritos? É uma coisa que nunca descansa e, não raro, acaba em confusão. Ainda assim, não é fácil escaparmos às comparações... Em literatura nem sempre é diferente... Especialmente se o problema é decidir entre o que seja realmente novo e o que não passa de mera novidade. O assunto, com certeza, dá pano pra manga.

Longe de querer resolvê-lo, arrisco dizer que, nesse campo — e num tempo em que muita inovação molenga passa facilmente por matéria rara —, o novo literário não é para ser confundido com as novidades de ocasião. Aquele permanecerá; estas, quando muito, são circo de cavalinhos. O realmente novo está com escritores que percorreram já um longo (e difícil) caminho, e que nos mostram, inequivocamente, que nem tudo que reluz é ouro. É o que eu chamaria, sem pestanejar, de luta literária.

Isto, a meu ver, ocorre com a obra de Roniwalter Jatobá. É literatura nova, no melhor significado do termo, e de um vigor que faz jus aos predicados que possam ser atribuídos a ela. E isso há 30 anos! Exatamente: estamos comemorando trinta anos de atividade de um escritor cuja consistência e permanência de sua arte o autorizam à condição conquistada do novo que vale a pena. A arte de Roniwalter atingiu já a condição de obra permanente e necessária: não passará, pois, com as chuvas do verão.

Com seu mais recente livro aqui à mão, o irrepreensível “Rios Sedentos” (Nova Alexandria, 2006), reconduzo o olhar e a memória aos muitos filhos de Roniwalter Jatobá que estão enfileirados aqui na estante, e que começaram a me chegar ao conhecimento ali pelo começo da década de 1980: “Sabor de Química” (contos, 1976); “Crônicas da Vida Operária” (1978: prêmio Casa de las Americas, de Cuba); “Filhos do Medo” (romance, 1979); “Pássaro Selvagem” (romance, 1975); “Tiziu” (romance, 1994); “O Pavão Misterioso” (crônicas, 1999); “Paragens” (novelas, 2004)... Isto só para citar alguns, e sem esquecer, é claro, das incursões do autor pela história — e pela mescla de ficção, história e biografia —, onde ele também é craque: “Juazeiro: guerra no sertão” (1996); “A crise do regime militar” (1997); “O Jovem Che Guevara (2004).

Claro que, em meio a essa obra vária e inquieta, tenho minhas preferências. Nesse sentido, a prosa de ficção de Roniwalter é mesmo o meu fraco. Seu texto é arte fina que fornece uma dimensão preciosa daquela literatura que consagra ao autor o perfil de um escritor que “num recanto pôs o mundo inteiro” (lembrando aqui um verso do imenso Machado de Assis).

O que a prosa de Roniwalter transmite e revela é essencialmente vida.

Os temas preferenciais têm como ponto de partida, e de chegada, nossa triste e inegável condição de seres abandonados ao jogo bárbaro de uma existência sem razão, num país igualmente dilacerado. Através, principalmente, da atenção para a vida dura do migrante, para o mundo do trabalho extenuante que maltrata e consome, para os cubículos das periferias, para o encontro violento e desolador do pequenino, tímido e solitário trabalhador interiorano com a engrenagem gigantesca e bruta da metrópole é que Roniwalter compõe um canto de solidariedade aos que sofrem sem que sejam sequer notados. Aos que não tiveram ainda a oportunidade de o ler, além de “Rios Sedentos” (2006), recomendo entusiasticamente a leitura de “Paragens” (2004), uma reunião de três obras do autor. Ali estão: “Pássaro Selvagem”, “Paragens” e “Tiziu”. Relativamente à primeira, julgo-a a obra-prima do escritor.

* Noel Arantes é doutorando em Teoria e História Literária pela Unicamp e docente da Universidade São Francisco (texto publicado no jornal Correio Popular, Campinas, 17/2/2007).

Coleção Jovens sem fronteiras homenageia um dos grandes ícones da MPB



Um novo volume da já consagrada coleção Jovens sem fronteiras da Editora Nova Alexandria chega ao mercado. É o livro O Jovem Luiz Gonzaga, escrito pelo jornalista Roniwalter Jatobá, biografia romanceada de um dos maiores ídolos da música popular brasileira.



A obra, que homenageia o famoso sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989), destaca a infância do menino sertanejo, a vocação para a música, revelada desde cedo, enfoca as dificuldades da juventude, os anos de exército, os amores e, sobretudo, a paixão pelo Nordeste, que ele cantou melhor do que ninguém.



A coleção Jovens sem fronteiras, desde seu início, primou pelo lançamento de biografias romanceadas de personagens diversificados, mas, principalmente relevantes, tanto na política ou nas artes. Com textos empolgantes, diálogos ágeis e um pano de fundo histórico - complementado pelas notas explicativas – os livros proporcionam sempre uma leitura prazerosa.



Com O jovem Luiz Gonzaga, não só os amantes do baião ou fãs do músico deverão apreciar o texto. A vida do genial músico pernambucano é narrada num contexto em que se desenvolvem importantes fases da história do Brasil. Uma curiosidade é o seu fascínio, na infância, pela figura do não menos mítico Lampião, personagem que o inspiraria na composição de sua indumentária, nas apresentações e capas de discos.



152 páginas cheias de vida, musicalidade e recheadas de passagens bem humoradas e sensíveis, desenvolvidas, a partir de declarações do próprio Gonzaga. Este livro de Roniwalter Jatobá ilustrar perfeitamente a infância e a juventude de Luiz Gonzaga.




8.02.2009

Estado de Minas, 2 de agosto de 2009 - Entrevista

LITERATURA OPERÁRIA

Carlos Herculano

Roniwalter Jatobá, escritor mineiro, é visto como pioneiro em retratar a vida do trabalhador urbano brasileiro

Os 60 anos do escritor Roniwalter Jatobá, completados semana pas­sada, foram comemorados com o lançamento de dois livros pela Edi­tora Nova Alexandria: Contos antológicos, volume organizado por Luiz Ruffato; e O jovem Luiz Gonzaga, da coleção Jovens sem fron­teiras, criada especialmente para o autor. Mineiro de Campanário, no Vale do Rio Doce, de onde saiu aos 10 anos, Roniwalter vive em São Paulo desde o início da década de 1970. Antes de se formar em jorna­lismo e também assumir a literatura, chegou a trabalhar na constru­ção civil e na indústria automobilística. Como escritor, começou a fi­car conhecido com o livro Crônicas da vida operária, lançado em 1978. De lá para cá publicou vários outros, ganhou prêmios impor­tantes e trabalhou em alguns jornais e revistas. Atualmente, o escri­tor, que continua vivendo em São Paulo, começa a escrever um no­vo livro, no qual contará uma história relacionada à Coluna Prestes, quando da sua passagem pelo sertão baiano. Quanto à publicação de Contos antológicos, Roniwalter Jatobá disse, em conversa com Car­los Herculano Lopes, que a obra representa o reconhecimento de um trabalho que, há quase 40 anos, ele vem realizando: "Deixa-me com a sensação de meio caminho andado nessa estrada cheia de obstácu­los que é a literatura brasileira."

Estado de Minas -- Como é essa história de ter sido você, com seus contos, quem praticamente "instaurou" a literatura operária no Brasil pelos idos de 1970? Ela era imprescindível naquele momento?

Roniwalter Jatobá -- Inicialmente, gostaria de deixar claro que a afirmação de que instaurei a literatura operária no País na década de 1970 é do escritor mineiro Luiz Ruffato, responsável pela seleção e apresentação de “Contos Antológicos” (Editora Nova Alexandria, 176 páginas), lançado em julho deste ano e que reúne, também de acordo com Ruffato, os meus melhores contos. Ao defender sua tese, Ruffato mostra que o operário, como personagem, foi pouco retratado na literatura brasileira. Segundo ele, antes dos meus textos, que saíram em livros como Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura, 1976), Crônicas da vida operária (Finalista do Prêmio Casa das Américas 1978, em Cuba) e Paragens (Finalista do Prêmio Jabuti 2005, São Paulo), o trabalhador urbano só podia ser entrevisto em um que outro romance – O cortiço, de Aluísio Azevedo, de 1890, Os corumbas, de Amando Fontes, de 1933, O moleque Ricardo, de José Lins do Rego, de 1935 – ou em um que outro conto – de autores como Mário de Andrade e Alcântara Machado. Claro que fico envaidecido com esse pioneirismo, mas na década de 1970, vivendo em plena ditadura militar, não tinha essa consciência. Buscava apenas retratar a vivência num mundo de perplexidade, ou seja, a minha visão de um migrante e operário na indústria automobilística paulista.

Estado de Minas -- Com os olhos de hoje como você vê esse tipo de literatura engajada (inclusive a sua?), que foi produzida aqui no Brasil naquele período sombrio da ditadura militar. Ela resistiu bem ao tempo?

Roniwalter Jatobá -- Fiz a literatura que eu podia fazer naquele momento. E não a considero engajada, no sentido de que tinha, a toco custo, passar uma mensagem, seja política ou social. De acordo com o poeta Ruy Espinheira, em resenha sobre Contos Antológicos, publicada em A Tarde (Salvador, 18/7/2009) escrevo sobre a vida que conheci como nordestino migrante, motorista de caminhão, trabalhador de construção civil e fábrica, buscando condições melhores em São Paulo. Não tive nenhuma intenção de tratar cientificamente fatos e personagens, não levantei teses sociais. Minha partida, claro, foi a experiência real, porém não escrevi como historiador, antropólogo ou sociólogo, muito menos cultivando correções políticas – e sim como escritor. Anos depois, tenho quase certeza que as histórias resistiram, sim. Talvez porque busco uma literatura que olhe a vida de frente. E busco devolver ao leitor aquele Brasil que já esteve presente em nossa literatura de ficção, sobretudo a partir dos anos 30, que tanto ajudou na formação de uma consciência nacional.

Estado de Minas -- Nesse contexto, quais outros autores você destacaria?

Roniwalter Jatobá – Da minha geração aprecio o mineiro Murilo Carvalho e o paranaense Domingos Pellegrini.

Estado de Minas -- Como começou a sua história com a literatura? Tinha pretensões de ser escritor quando ainda vivia em Campanário?

Roniwalter Jatobá -- Acho que dois fatores importantes me fizeram arriscar na literatura: muita leitura e vivência. Nasci em Campanário, Minas, em 1949. Meus pais eram baianos, estavam ali desde o final da Segunda Grande Guerra (1939-1945), quando buscaram o norte mineiro para tentar a sobrevivência. Eram tempos difíceis, época de desbravamento de uma inóspita região. Quando começou a chegar o progresso, por exemplo o asfaltamento da Rio-Bahia, minha família voltou para o sertão baiano nas proximidades da cidade de Campo Formoso. E essa volta foi importante para mim. Vivendo na casa de um tio, entrei num colégio protestante para fazer o ginásio e, aí, a descoberta da literatura. Nesta pequena cidade, por sinal, havia um oásis cultural. Nunca me esqueço: os jovens, na grande maioria, brigavam para ver quem ia ler primeiro as novidades literárias que chegavam de Salvador. Havia ali um advogado e professor de geografia, Domingo Dantas, que colecionava livros autografados de autores brasileiros. Tinha todo mundo. Ele mandava buscar no Rio de Janeiro. Naquela época, e durante quatro anos, nos esbaldamos de ler Graciliano Ramos, José Lins do Rego e muita prosa americana. Em 1964, terminei o ginásio, mas meu pai não tinha condições de me enviar para Salvador para continuar os estudos.

Com quinze anos, a minha perspectiva era trabalhar na roça ou ajudar meu pai, que possuía um velho caminhão. Naquele período da nossa vida, o Ford amarelo servia para meu pai comercializar produtos industrializados (açúcar, bebidas) e também permutá-los por feijão, farinha etc. Fui, então, dirigir o caminhão. Fiquei, assim, nessas andanças por quase três anos. O trabalho era agradável e me sobrava muito tempo. Enquanto meu pai cuidava dos negócios nos pequenos lugarejos, eu lia. Foi aí que conheci quase todos os títulos da pequena biblioteca de Campo Formoso e travei conhecimento com os textos de Dostoiévski, Gogol, Kafka e muitos outros.

Depois de servir o Exército em Salvador, vim para São Paulo. Era início de 1970. Aqui fui morar em São Miguel Paulista. Até abril bati muita perna em busca de trabalho. Na Nitroquímica, a maior fábrica de São Miguel, e que empregava quase todo mundo que chegava da Bahia, não tinha vaga. Rodei a cidade inteira até que, um dia, consegui uma vaga de ajudante de almoxarifado na Karmann-Ghia, no ABC. Fiquei três anos empurrando carrinho cheio de peças para a produção. Em 1973, saí e entrei na Abril, como apontador de produção na gráfica. A partir daí, auxiliado pela empresa, fiz supletivo colegial e, depois, pude me formar em jornalismo. Foi na escola que comecei a escrever os primeiros trabalhos. Eram contos e, em todos eles, o cenário era a periferia paulistana ou os dramas dos migrantes. Virei, então, escritor e jornalista. Enquanto trabalhava em Versus, Movimento e publicações da Abril, continuei a escrever. Aí, um dia, mandei um conto para a revista Ficção, no Rio, e outro para a Escrita, em São Paulo. Ganhei os dois prêmios e não parei mais.

Estado de Minas -- Por falar nisso, quais são as lembranças que você guarda da cidade. Qual ainda é a sua ligação com Minas?

Roniwalter Jatobá -- Tenho ido pouco a Campanário. A maioria de meus parentes mora agora em Belo Horizonte, mas ainda tenho familiares por lá. Recentemente, escrevi o posfácio do livro A saga dos Florêncios, de Elio Domingos, que conta a vida do patriarca Florêncio Domingos dos Santos, fundador de Campanário (antiga Igreja Nova). Foi como mergulhar no nosso mundo particular das madalenas de Proust. Todo um universo de lembranças, umas mais presentes, outras que estavam perdidas, vieram à tona. E todas elas, para mim, tinham um sabor de infância. E isso não se apaga. Foi ali, às margens da Rio-Bahia, que recebi os primeiros sinais de consciência do mundo.

Estado de Minas -- Fale-nos dos livros que você publicou para a Coleção Jovens sem fronteiras, da Nova Alexandria, e especialmente sobre O jovem Luiz Gonzaga, cujos 20 anos de sua morte estão sendo comemorados?

Roniwalter Jatobá -- Há escassez de bons textos para o público jovem. Num limbo entre o leitor adulto e o infantil, os jovens sentem falta de uma literatura que aponte rumos num momento de formação da sua personalidade. Por isso, aproveitando a minha experiência em duas publicações muito especiais que abordaram a história brasileira e nas quais trabalhei (Nosso Século, da Abril Cultural, e Retrato do Brasil, das editora Três e Política), editei para o público jovem A crise do regime militar e Juazeiro: guerra no sertão, sobre o padre Cícero, ambos pela Editora Ática. Mais recentemente, comecei a escrever para a coleção “Jovens sem fronteiras”, da Editora Nova Alexandria, onde publiquei O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005) e O jovem Fidel Castro (2008). Agora estou lançando O jovem Luiz Gonzaga, que conta a trajetória do “rei do baião”, desde o seu nascimento em Exu, Pernambuco, em 13 de dezembro de 1912, até a sua morte em 2 de agosto de 1989, em Recife. Exploro a sua rica e conturbada infância e juventude, a vocação para a música, revelada desde cedo, enfoco os anos de Exército, os amores e, sobretudo, a paixão pelo Nordeste, que ele cantou melhor do que ninguém.

Estado de Minas -- O que significou para você a publicação dos seus contos antológicos. É uma coroação do seu trabalho como ficcionista?

Roniwalter Jatobá -- Sinto, com muito orgulho, que representa um reconhecimento ao trabalho que venho realizando na literatura brasileira há mais de três décadas. Segundo o ex-professor da USP Flávio Aguiar, na época esse tipo de literatura enfrentou um paredão de preconceitos. “Houve crítica que o denunciasse como populista, naturalismo requentado, prosa referencial, superada”, disse ele. “Embaida por seu próprio modismo formalista, faltava a essa crítica a sutileza necessária para perceber que ali medravam aspectos criadores insuspeitos, como o de debuxar vozes antes quase inaudíveis no terreno literário, a não ser pelo viés repetido do pitoresco ou da falta de educação formal, as vozes do mundo do trabalho.” A publicação dos “Contos Antológicos” me deixa com a sensação de meio caminho andado nessa estrada cheia de obstáculos que é a literatura brasileira.

Estado de Minas -- Quais são os seus próximos projetos literários. Por falar nisso, como você anda vendo a literatura brasileira atual?

Roniwalter Jatobá -- O próximo passo é um romance histórico, cuja história se passa em 1926, na Chapada Diamantina, Bahia, durante a grande epopéia da Coluna Prestes na região. Pesquiso o assunto há mais de cinco anos e acho que já está na hora de mergulhar nessa fascinante aventura. Quanto à literatura atual, leio bastante. Mas, como escritor, prefiro não fazer nenhuma avaliação agora. Os autores de hoje podem muito bem esperar três décadas, como eu esperei pacientemente, acreditando que estava no caminho certo da minha própria voz literária.

Roniwalter Jatobá homenageia Luiz Gonzaga em livro fantástico


Marco Haurélio

 

Roniwalter Jatobá, um dos grandes nomes da literatura nacional, resolveu recontar a trajetória de Luiz Gonzaga. O resultado:um livro fascinante que acompanha a infância e a juventude do grande ídolo da música nordestina.
"O jovem Luiz Gonzaga" (Ed. Nova Alexandria) será lançado no dia 5 (agosto), na Casa das Rosas, 37, Avenida Paulista. O evento, que começa às 19h, será apresentado por Assis Angelo, que assina um belo texto na orelha do livro, e privou da amizade do Rei do Baião. Haverá, também, uma apresentação da rainha Anastácia acompanhada por um autêntico trio de forró pé de serra. O Correio Braziliense deu matéria de página inteira sobre o livro e o homenageado, que nos deixou há 20 anos, a 2 de agosto de 1989. Veja abaixo.

Livro retrata com detalhes e romantismo a vida de Luiz Gonzaga, sanfoneiro mais venerado do país

 

Nahima Maciel

Luiz Gonzaga estava com 18 anos quando entrou para o Exército. Apesar de tocar sanfona muito bem, não sabia ler partitura. Acabou condenado a entoar corneta na banda militar. Afinal, corneteiro não precisava ler as notas e o maestro era severo: quem não entende a pauta musical não pode tocar instrumento na banda. Ironicamente, anos mais tarde Luiz Gonzaga se tornaria o sanfoneiro mais conhecido e celebrado do Brasil. Quando isso aconteceu, já era capaz de ler partitura, mas não foi com a educação formal que as raízes musicais foram plantadas. Essas sementes começaram a florescer muito antes, durante a infância em Exu (PE), onde nasceu. O escritor Roniwalter Jatobá mergulhou nessa infância para escrever O jovem Luiz Gonzaga, o 10º volume da coleção Jovens Sem Fronteiras que a Editora Nova Alexandria lança na próxima semana.
A história do sanfoneiro proibido de tocar porque não lia partitura está entre as mais interessantes do livro, mas é com uma das últimas apresentações de Gonzaga que Jatobá dá início à história. Doente e debilitado pelo câncer, o compositor subiu ao palco em Senhor do Bonfim sem conseguir empunhar a sanfona. Fraco demais, apenas cantou. A cena é contada com detalhes pelo escritor. Há diálogos, pensamentos e muitas descrições, característica que se estende a todo o livro. “Tem muito diálogo para facilitar a leitura porque é uma coleção dirigida a jovens e o texto tem que ser agradável, direto. Busco mais informações por intermédio do que já foi publicado, mas me dou o direito de fantasiar um pouco nesses diálogos, porque é diferente de uma biografia, que tem que ser certinha. Ficcionalizo um pouco em cima de algumas coisas, mas não fujo dos detalhes, não mudo o que aconteceu”, avisa Jatobá, autor de O jovem JK, O jovem Che Guevara e O jovem Fidel, da mesma coleção.
Após dois anos de pesquisa que incluiu, além da leitura de todas as publicações sobre o sanfoneiro, visitas aos locais por onde passou e conversas com personagens que o viram no palco, o escritor passou tudo para o papel com a intenção de ressaltar a força de vontade que sempre guiou o músico. “Tento mostrar ao jovem o que o biografado fez para alcançar seus objetivos. No caso do Gonzaga, mostro as dificuldades, mas também a força de vontade que, se ele não tivesse, não teria conseguido tudo o que conseguiu.”

Essência
No entanto, o escritor não se prende a roteiros cronológicos. A leveza de O jovem Luiz Gonzaga vem dos saltos no tempo praticados pelo autor, que narra como se estivesse presente nas cenas descritas e devota especial atenção à infância do sanfoneiro. “O mais importante foi a vivência dele em Exu, onde conseguiu captar toda a essência de sua vida. Essa primeira infância foi fundamental. Ele aprendeu a tocar enquanto escutava o pai e depois usou isso na sua música. Em outro momento importante, ele foge de casa e vai para o Exército. Lá, aprendeu alguma coisa no sentido de conhecer o mundo e viajou muito pelo Brasil.” Mais tarde veio o sucesso. Para consegui-lo, Gonzaga percorreu caminhos tortos. No Rio, participava de concursos de rádio como sanfoneiro.

O sucesso veio acompanhado de altos e baixos. Jatobá conta que o sanfoneiro nunca entrou em baixa no Nordeste. Nas metrópoles, era diferente. Se não estivesse na mídia, acabava ignorado. “De repente ele desaparecia e depois reaparecia. Nos anos 1970, as universidades redescobriram Gonzagão, mas o auge foi nos anos 1950 e 1960. Mesmo assim, ele sempre viajava pelo interior do país, tocava em cinema, praça pública, circo, onde tivesse lugar para se apresentar.” O mais precioso na figura do compositor, no entanto, era generosidade. “Era um cara brincalhão e solidário com todo mundo. Não deixou grandes fortunas porque dava tudo. Se encontrava um cara com talento tocando nas feiras, mandava ele para a própria casa, no Rio. E tinha uma preocupação muito grande com a sua cidade de origem.”