terça-feira, 4 de outubro de 2011

Eduardo Miranda respira James Joyce em Dublin


Em entrevista ao Blog da Ateliê, o tradutor, músico e poeta falou da relação de “amor e ódio” entre Joyce e Dublin. Eduardo Miranda chegou à final do Concurso de Tradução Bloomsday 2011 e publicou sua tradução na revista eletrônica TUDA.
Como foi seu primeiro “encontro” com a obra de James Joyce?
Joyce me chegou primeiro através de Ulisses, ainda muito jovem – praticamente ilegível para mim na época. Depois fui cronologicamente retrocedendo: Retrato do Artista Quando JovemDublinenses, e depois a poesia… mas foi em Dublin que tive a oportunidade de me envolver mais com a literatura e a cultura irlandesa – inclusive com a língua irlandesa – e consequentemente com James Joyce. Foi aqui em Dublin, durante a comemoração dos 100 anos de Ulisses,  que pude percorrer o caminho que Leopold Bloom percorreu, no mesmo passo que o livro.
Fale um pouco sobre a obra e vida de James Joyce, segundo a sua experiência.
Na verdade foi depois da minha mudança para Dublin por motivos de trabalho que vim a me interessar mais pela obra de Joyce – e tudo em Joyce é Dublin! E entender essa relação de amor e ódio foi um desafio… Joyce deixou claro em vida que não gostava de Dublin. Stephen Joyce, neto e curador da obra de Joyce, faz questão de afirmar que seu avô não gostava da cidade. Tampouco ele simpatiza com Dublin, e desaprova toda tentativa de citar a obra do avô, seja para turismo, nomeação de monumentos, ou mesmo comemorações. O único lugar onde é permitido citar a obra de Joyce é no James Joyce Centre, durante as comemorações do Bloomsday, festival que acontece todo dia 16 de Junho e que comemora as aventuras de Bloom.
Como é traduzir James Joyce?
Primeiramente acho que todos os que se submeteram ao desafio de traduzir o Finnegans Wake – e não só os finalistas – já são heróis pela própria ousadia. Para mim foi uma tarefa trabalhosa, tanto que consumiu quase todas as minhas horas livres de uma semana inteira! Mas ao mesmo tempo foi excitante e divertida… uma aventura e tanto! E o fato de morar em Dublin e de ter um certo conhecimento da língua irlandesa – mesmo que parco –  fez com que eu me sentisse, de certa maneira, mais próximo dos contextos joyceanos, e acho que acabou ajudando um pouco a transposicão multi-dimensionais do texto… além, é claro, de um pouco de intuição e muita poesia!
Fale um pouco de você e do seu trabalho.
Não sei se posso chamar de trabalho, no sentido convencional da palavra. É mais como um hobby, só que levado muito à sério… extremamente! Mas o tempo é que não ajuda muito. Como tenho o meu trabalho na área de Tecnologia da Informação, acabo dedicando apenas o tempo que sobra às outras atividades. Trabalho e família vêm primeiro e, às vezes, o que sobra não é muito. Tento ser constante na TUDA, uma e-zine de poesia, literatura e arte que publico mensalmente, já há 3 anos. É lá que publico minhas traduções. Minhas poesias, meus contos e outros textos podem ser acessados à partir de um “portal” que mantenho, o edotm.info. Já na música, tenho um projeto experimental e multi-instrumental, à distância, chamado The Virtual EM3, e uma banda real, o Wellfish. Conforme o tempo permite, vou “trabalhando”….
Eduardo Miranda

segunda-feira, 28 de março de 2011

Crônicas do mundo ao revés

Novo livro de Flávio Aguiar foi lançado em 17/3/2011 em São Paulo. Roniwalter Jatobá vê emergência da literatura dos anos de chumbo.


“Arte Memorável”,

por Roniwalter Jatobá

Anos atrás, início da década de 1990, alguém perguntou para mim por que a nossa literatura pouco enfocava o triste período do regime militar. Lembro bem do que respondi: “Dê tempo ao tempo”. Assim, pouco a pouco, muitos fatos têm vindo à tona, sobretudo em textos memorialísticos, mas também na literatura. Os dramas vividos naqueles duros tempos da ditadura, por sinal, servem de tema para o professor e escritor Flávio Aguiar nestas Crônicas do mundo ao revés. As quatro primeiras histórias, num total de dezenove, mostram situações muito além do que é claramente visto, seja narrando uma noite de medo e amor de um casal atuante na luta armada num esconderijo urbano cercado pela polícia, seja a angústia do guerrilheiro que, para resolver seus problemas advindos com a tortura, procura no exílio a ajuda de um psicanalista. Mas o livro toma outros rumos. Honrando a tradição de bons contadores de histórias, que combinam a simplicidade da arte de narrar com a abordagem de questões mais complexas, como fizeram o argentino Jorge Luís Borges e o uruguaio Juan José Morosoli, Flávio Aguiar recupera, num clima de ficção e realidade, o sentimento daquele exato momento da vida de suas personagens. Em “O ninho”, por exemplo, a temática é o amor. De forma surpreendente, um homem conquistador é seduzido por uma charmosa mulher, mas, após alguns dias de muito prazer, ela o deixa para ir em busca do próprio destino. Já em “A tinturaria”, dois amigos e filhos dos pampas brasileiro e uruguaio, tão parecidos quanto diferentes, viajam para Caracas, na Venezuela, para o Fórum Social Mundial, e, após vários desencontros, voltam fascinados e apaixonados por uma mulher apelidada de Pan de Azúcar. Noutra direção, em “História de família”, o autor procura suas raízes alemãs e, em “Ai de ti, 64”, relata a trajetória de um oficial da Aeronáutica para com quem o povo e a cidade de Porto Alegre têm uma dívida imorredoura, pois foram salvos por ele e outros militares de um bombardeio criminoso. O gaúcho Flávio Wolf de Aguiar, nascido em Porto Alegre em 1947, sempre nos iluminou em todas as atividades às quais se dedicou no mundo da cultura. Foi assim como professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo, romancista, antologista, contista, crítico literário e analista político. Agora, de novo, nos surpreende como cronista. Ou melhor: como um excelente contador de histórias, numa arte memorável, generosa, densa e repleta da condição humana.

terça-feira, 9 de março de 2010

TUDA - Revista de Poesia, Literatura & Arte


... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos, de todas as qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que de fato conta... de TUDA !!!


É a Março TUDA – Primavera no ar ou quase!

Por nem TUDA ser tão fácil como parece, apelo novamente as novas regras para a colaboração em TUDA - Leia >>aqui<< - confira também o Calendário Permanente Tudiano, e saiba todas as datas para não perder nado de TUDA.

Este mês TUDA traz as Palavras Quebradas de Arnaldo Xavier, Souzalopes, Luiz Roberto Guedes, Santiago de Novais, Sandra Ciccone Ginez, Dorival Fontana, Rafael Mantovani, Túlia Lopes e Adriana Pessolato. As Palavras Contínuas de Roniwalter Jatobá, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Jeanette Rozsas e Leonardo André Elwing Goldberg. Nas Palavras Alheias, o espanhol Antonio Gamoneda. Oswald de Andrade está nas Foreign Words, Raul Bopp em Palavras Já Ditas. As Palavras Mostradas de José Geraldo de Barros Martins, o britânico Banksy, Eduardo Miranda e Aristides Klafke. Nas Palavras Ensaiadas, Ronald Augusto.

Opinem, opinem sempre!

Agora, como de costume, é só degustar, deglutir, triturar... TUDA à vontade. Pode até lamber os dedos que TUDA é limpinha... limpinha mas contagia. E como contagia! Por isso, aprecie TUDA SEM NENHUMA MODERAÇÃO. Ela só é contra a INDIFERENÇA!!!

Na luta, companheiros... e TUDA, mas TUDA de bom MESMO!!!

O (auto-proclamado) Editor!

P.S.: Dicas de TUDA:
  • O Conteúdo - fica à direita da página, e dá acesso aos textos da edição do mês corrente;
  • TUDO DE TUDA POR ASSUNTO - pode-se aqui acessar tudo o que já foi publicado em TUDA por gênero - poesias, contos, ilustrações, críticas etc...;
  • TUDO DE TUDA POR AUTOR - Busca por autores/artistas já publicados em TUDA;
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domingo, 6 de dezembro de 2009

A voz do proletariado, sem mistificação ou caricatura






Ronaldo Cagiano*, Jornal Opção, Goiânia, 6 de dezembro de 2009

Se­le­ci­o­na­dos por Lu­iz Ruf­fa­to, “Con­tos An­to­ló­gi­cos de Ro­niwal­ter Ja­to­bá” é uma da­que­las obras in­dis­pen­sá­veis pa­ra se entender o pro­le­ta­ri­a­do bra­si­lei­ro. A vi­da da clas­se tra­ba­lha­do­ra ur­ba­na, for­ma­da por le­gi­ões de mi­gran­tes, é o uni­ver­so que Jatobá re­cri­ou






A re­cen­te edi­ção de “Con­tos An­to­ló­gi­cos” pe­la Edi­to­ra No­va Ale­xan­dria, re­u­nin­do os me­lho­res tra­ba­lhos des­se gê­ne­ro pro­du­zi­dos ao lon­go de trin­ta anos por Ro­niwal­ter Ja­to­bá, não só vem mar­car a pre­sen­ça de uma das grandes vo­zes da fic­ção con­tem­po­râ­nea bra­si­lei­ra, co­mo pre­mi­ar ao lei­tor com uma pro­sa do mais al­to pa­drão, naqui­lo que ele in­cor­po­ra co­mo ex­pres­são de uma qualida­de nar­ra­ti­va, co­mo pe­lo que re­pre­sen­ta de re­tra­to sin­ce­ro e po­é­ti­co de um ex­tra­to so­ci­al e hu­ma­no. Além de Aman­do Fon­tes (“Os Co­rum­bas”) e Jo­sé Lins do Re­go (“Mo­le­que Ri­car­do”), na li­te­ra­tu­ra bra­si­lei­ra pou­cos são os au­to­res que mer­gu­lha­ram na re­a­li­da­de pro­le­tá­ria não ape­nas pa­ra es­bo­çá-la, co­mo tam­bém re­fle­tir so­bre es­se mun­do tão es­que­ci­do. A vi­da pro­le­tá­ria, quan­do é lem­bra­da (e na fic­ção das no­vas ge­ra­ções é tra­ta­da com su­per­fi­ci­a­li­da­de, ou solenemen­te ne­gli­gen­ci­a­da), con­ver­te-se de ca­ri­ca­tu­ra ou des­cam­ba pa­ra um pro­ta­go­nis­mo secun­dá­rio. Mui­tas ve­zes, o tra­ba­lha­dor bra­çal da cons­tru­ção ci­vil, o em­pre­ga­do de co­mér­cio, o me­ta­lúr­gi­co, o ope­rá­rio das má­qui­nas das in­dús­tri­as, o mo­to­ris­ta de ôni­bus, por exem­plo, não pas­sa­ram de me­ro co­ad­ju­van­tes de uma his­tó­ria prin­ci­pal, em que o do­no do po­der, da for­ça de tra­ba­lho ou do ca­pi­tal é que do­mi­nam o dis­cur­so nar­ra­ti­vo. Se­le­ci­o­na­dos por Lu­iz Ruf­fa­to, “Contos An­to­ló­gi­cos de Ro­niwal­ter Ja­to­bá” é uma da­que­las obras in­dis­pen­sá­veis pa­ra se entender o pro­le­ta­ri­a­do bra­si­lei­ro a par­tir de uma mi­ra­da pes­so­al, que foi re­ti­rar da so­fri­da traje­tó­ria dos tra­ba­lha­do­res bra­si­lei­ros que vi­e­ram bus­car uma ou­tra vi­da (e mui­tas ve­zes nem sem­pre a en­con­tra­ram) ma­té­ria e cir­cun­stân­cia pa­ra tra­du­zir, sem equí­vo­cos e sem ro­dei­os, a pro­ble­má­ti­ca so­ci­al, eco­nô­mi­ca e cul­tu­ral. Tra­ta-se de uma vi­são sub­ja­cen­te à pre­sen­ça dos mi­gran­tes co­mo for­ça de tra­ba­lho que se cons­ti­tu­í­ram em mo­la pro­pul­so­ra da ri­que­za bra­si­lei­ra a par­tir da dé­ca­da de 50, quan­do o Pa­ís co­me­ça a vi­ver uma in­ten­sa me­ta­mor­fo­se, sal­tan­do de uma eco­no­mia agrá­ria pa­ra um ca­pi­ta­lis­mo in­dus­tri­al e ur­ba­no, e nes­ses con­tos o au­tor per­mi­te ao lei­tor co­mum per­ce­ber que es­sa trans­for­ma­ção pro­por­ci­o­na­da pe­lo in­dus­tri­a­lis­mo do pós-guerra e da era JK im­pôs um cus­to so­ci­al e hu­ma­no sem pre­ce­den­tes, ten­do as mi­gra­ções internas um pa­pel pre­pon­de­ran­te nes­se pro­ces­so. Ja­to­bá, que é mi­nei­ro (nas­ci­do em Campanário), mas pas­sou boa par­te de sua vi­da na Ba­hia, co­nhe­ce de per­to es­se uni­ver­so, as dores e afli­ções dos boi­as-fri­as, dos sem-ter­ra, dos fa­min­tos, dos sem-op­ção e ex­cluí­dos de to­dos os gê­ne­ros, que tro­cam as re­gi­ões mais po­bres do Pa­ís. In­te­gra a imen­sa le­gi­ão dos que che­ga­ram em São Pau­lo “pa­ra ven­cer na vi­da” e ten­do si­do ope­rá­rio, mo­to­ris­ta, em­pre­ga­do de in­dús­tria grá­fi­ca, an­tes de se for­mar em jor­na­lis­mo. É so­bre os que vi­e­ram aven­tu­rar-se, co­mo ele, no sonho do em­pre­go, do sa­lá­rio e de ou­tra sor­te na vi­da, pa­de­cen­do a sa­u­da­de, a so­li­dão e a insulari­da­de di­an­te dos de­sa­fi­os dos gran­des cen­tros, que o au­tor vem fo­can­do seus con­tos e no­ve­las, des­de su­as pri­mei­ras pro­du­ções. Co­mo em “Sa­bor de Quí­mi­ca”, “Ti­ziu”, “Crô­ni­cas da Vi­da Ope­rá­ria” e “Pás­sa­ro Sel­va­gem”, sua pre­o­cu­pa­ção é com o des­ti­no des­se tra­ba­lha­dor des­lo­ca­do, fru­to (ou ví­ti­ma) dos pro­ces­sos mi­gra­tó­rios. E o au­tor es­cre­ve mes­clan­do a cru­e­za de su­as vi­das com a de­li­ca­de­za da lin­gua­gem, nu­ma pro­fun­da re­ve­rên­cia es­té­ti­ca àque­les que, com sua mão-de-obra ba­ra­ta trou­xe­ram ape­nas “du­as mãos e o sen­ti­men­to do mun­do” e na for­ça bru­ta de sua ilu­são fo­ram ca­pa­zes de su­pe­rar até mes­mo as no­vas do­res e ou­tros fra­cas­sos, pa­ra ali­men­tar o de­se­jo de um dia ven­cer e vol­tar pa­ra su­as ori­gens, um pou­co me­lho­res do que che­ga­ram, com a (im)pro­vá­vel fe­li­ci­da­de na ba­ga­gem.
An­tes re­le­ga­dos (co­mo bem ilus­tra a his­tó­ria de Ja­cin­to no con­to “Re­mor­sos”, abai­xo tran­scri­to) à pró­pria sor­te em su­as re­mo­tas e trá­gi­cas ori­gens, os per­so­na­gens re­co­lhi­dos por Ja­to­bá no imen­so cal­dei­rão ur­ba­no são a tra­du­ção mais cru­el do ins­tin­to de so­bre­vi­vên­cia que im­pul­si­o­na o ho­mem e que mui­tas ve­zes, por fal­ta de op­ção lá nos seus rin­cões mais inós­pi­tos, su­jei­tam-se a um tra­ba­lho ár­duo. Pre­mi­dos pe­la fal­ta de em­pre­go, pe­la mi­sé­ria, pe­la se­ca e ou­tras tan­tas priva­ções, não se ame­dron­tam em ar­ris­car a pró­pria vi­da nas cons­tru­ções, nos tor­nos, nas roldanas, nos ser­vi­ços in­se­gu­ros e até nos tra­ba­lhos in­dig­nos, per­den­do às ve­zes de­dos, mãos e fi­lhos pa­ra a avas­sa­la­do­ra en­gre­na­gem de um ca­pi­ta­lis­mo que re­ti­ra do ser até mes­mo o amor pró­prio, porque a fo­me ba­te à por­ta e o tra­ba­lho (mui­tas ve­zes ex­plo­ra­tó­rio e opres­si­vo) é o que res­ta con­tra as mes­qui­nhas con­tin­gên­cia da vi­da que um dia aban­do­nou em bus­ca de ou­tras con­di­ções. Nas vo­zes de Ger­ma­nos, Zé­li­as, Ja­cin­tos, To­ni­cos, San­ti­nas, Ci­rí­a­cos e ou­tros tan­tos sem no­me, sem ros­to e sem do­cu­men­to que apor­ta­ram à imen­sa sel­va de pe­dra pau­lis­ta­na, Ro­niwal­ter Jatobá dá vi­da a mui­tos que sem­pre vi­ve­ram con­de­na­dos a ne­nhu­ma. E nes­se fler­te par­ti­cu­lar com su­as vi­das e es­pe­ran­ças, re­al­ça a im­por­tân­cia dos que do­a­ram to­do seu es­for­ço, su­or, lá­gri­mas e mui­tas ve­zes a sua vi­da (e a dos seus) pa­ra cons­tru­ir não ape­nas um so­nho ín­ti­mo, mas o de um Pa­ís me­lhor, em cu­jo fu­tu­ro não hou­ves­se ne­ces­si­da­de de ou­tras his­tó­ri­as se re­pe­ti­rem com a sin­gu­la­ri­da­de trá­gi­ca das vi­das que Ro­niwal­ter re­co­lo­ca com jus­ti­ça e co­mo ho­me­na­gem nes­ses con­tos pun­gen­tes e de pro­fun­da hu­ma­ni­da­de.





Leia um con­to de Ro­niwal­ter Ja­to­bá




Re­mor­sos



Ja­cin­to viu, nu­bla­do, por du­as ve­zes, as en­fer­mei­ras pas­sa­rem por ele apres­sa­das, olha­rem pa­ra a sua ca­mi­sa su­ja de san­gue e se per­de­rem no cor­re­dor em fren­te. A in­se­gu­ran­ça no tra­ba­lho, a co­ra­gem, es­sas, sim, fi­ca­ram no ter­re­no da cons­tru­ção, bem pró­xi­mo à ca­sa da sua mãe. A escada em fal­so tom­bou en­tre bal­des, tin­tas e afli­tos: aco­de o ho­mem! Pen­du­ra­do en­tre gar­ra­fas pon­ti­a­gu­das, que­bra­das, que for­ma­vam bar­rei­ras no al­to mu­ro vi­zi­nho, Ja­cin­to nes­sa ho­ra so­men­te sen­tia o frio da que­da, o pa­vor de mor­rer. O pei­to, num ras­go pro­fun­do, di­la­ce­ra­do, em san­gue. Os gri­tos que eco­a­vam pe­las ca­sas vi­zi­nhas não in­ter­fe­ri­ram na tra­je­tó­ria do lí­qui­do ver­me­lho que su­ja e es­cor­re pe­los vi­dros, se es­par­ra­ma, tor­nan­do o bran­co do mu­ro uma cor ru­bra e re­al.


As fra­ses de Ja­cin­to, da mãe, da me­ni­na­da que cor­ren­do avi­sa, se in­ter­li­gam — Que pen­sa­ção em mor­rer!; meu fi­lho mor­reu!; ain­da não mor­reu não! — em eco tris­te no mo­vi­men­to da tar­de.


A sa­la do hos­pi­tal, mes­mo com o sol lá fo­ra, não ti­nha um ja­ne­lão que dei­xas­se a cla­ri­da­de en­trar. A luz ace­sa du­ran­te o dia da­va um bri­lho es­tra­nho, ama­re­lo, às pes­so­as que ocu­pam as qua­tro cadeiras e o pe­que­no so­fá ras­ga­do no en­cos­to. O re­gis­tro na car­tei­ra pro­fis­si­o­nal não abriu portas nem fez mu­dar sem­blan­tes; ro­ti­na, es­pe­ra. Na sa­la exí­gua po­dia ou­vir as pa­la­vras, pou­co usa­das, dos que com­pu­nham o in­te­ri­or. Num can­to, o an­ci­ão que res­pi­ra des­com­pas­sa­do, dificulto­so, des­cren­te da vi­da, olha pa­ra as pró­pri­as mãos, in­di­fe­ren­te ao mo­vi­men­to, bur­bu­ri­nho do hos­pi­tal. Ve­zes se­gui­das, a mãe de Ja­cin­to, gor­da, ves­ti­do azul tro­ca­do às pres­sas, en­trou no ba­nhei­ro no fi­nal do cor­re­dor pa­ra la­var o pa­no que lim­pa­va o san­gue que es­cor­ria de­le. No banhei­ro, as pes­so­as que aguar­da­vam na fi­la, de­sin­qui­e­tas, re­cla­ma­vam da vi­da, da pró­pria fi­la, de tu­do.


— Mãe, vou mor­rer! — dis­se Ja­cin­to, res­pi­ran­do for­te, fra­co. Ele olhou os pés su­jos de ter­ra, o teto e os avi­sos co­la­dos na pa­re­de. Ten­tou ler, mas não con­se­guiu. Nem via no am­bi­en­te fe­cha­do, si­len­cio­so, sen­ti­men­tos de tris­te­za, so­li­dão, me­do. Pes­so­as an­sio­sas por aten­di­men­to, pe­din­tes, que fi­cam pa­ra­das, co­la­das em du­ras ca­dei­ras e têm os cor­pos do­lo­ri­dos pe­la lon­ga es­pe­ra, mas não per­am­bu­lam pe­lo cor­re­dor, com re­ceio de in­co­mo­dar. Elas es­pe­ram que as si­tu­a­ções di­gam mais, mui­to mais que as pa­la­vras que a cus­to sai­ri­am de su­as bo­cas me­dro­sas de fa­lar. E es­pe­ram. Ar­re­ne­gan­do da ho­ra em que, do­en­tes, têm pre­ci­são. A si­re­ne da am­bu­lân­cia que se apro­xi­ma vai au­men­tan­do, au­men­tan­do, até dis­si­par os sus­sur­ros que es­ca­pa­vam no si­lên­cio. A am­bu­lân­cia atra­ves­sa ren­te ao cor­re­dor, ve­loz co­mo a dor de Ja­cin­to. Ele sen­te pon­ta­das e frio no co­ra­ção. Ele de­li­ra in­con­sci­en­te, ima­gi­nan­do. Viu de­sa­pa­re­cer na ma­nhã o or­va­lho que tei­ma em con­ti­nu­ar nas fo­lhas frá­geis e mi­nús­cu­las. Sol­tou das mãos que o se­gu­ra­vam e al­çou um voo rastei­ro, de­pois su­biu na imen­si­dão do es­pa­ço que se­pa­ra a vi­da da mor­te. Pai­rou de asas abertas. Gru­dou-as no cor­po é sol­tou-se no es­pa­ço das lem­bran­ças, ora dis­tan­tes, ora bem próximas, que da­vam a im­pres­são de que ele par­ti­ci­pa­va. Sen­tiu re­mor­sos na des­tru­i­ção de vidas: for­mi­gas, nam­bus de pés ro­xos, nam­bus de pés ver­me­lhos, ara­nhas, pás­sa­ros, pre­ás, coelhos, o ma­tar de fran­gos em di­as de fes­tas. Deu von­ta­de de fe­char as asas e pre­ci­pi­tar es­te pe­que­no cor­po de en­con­tro às min­gua­das fo­lhas, em ba­que sur­do na ter­ra. De re­pen­te, gri­ta. Ja­cin­to so­nha com o seu pró­prio vul­to que, de ca­be­ça er­gui­da, gri­ta e as­so­bia pa­ra os ca­chor­ros que pas­sam. Ti­nha sa­í­do lo­go ce­do, sem ca­mi­nho cer­to, ven­do o mun­do. An­dou até a pon­te do rio, de cos­tas, con­tan­do os pas­sos, pi­san­do for­te pa­ra dei­xar na areia fo­fa o ras­tro. Co­mo se na­da pu­des­se apa­gar a sua pas­sa­gem. Fi­cou aca­ri­cian­do um ra­mo de ur­ti­ga bra­va nos bra­ços pa­ra sen­tir a co­cei­ra en­trar de­va­ga­ri­nho no cor­po. Era lou­cu­ra. Brin­ca­dei­ra de cri­an­ça. A gen­te cres­ce. Quan­do co­me­ça a des­co­brir que o do­ce de go­i­a­ba fei­to na co­zi­nha es­fu­ma­ça­da vai fi­can­do com sa­bor di­fe­ren­te, fi­ca adul­to. De pé, en­cos­ta­do à cer­ca, Ja­cin­to vê for­mi­gas que cor­rem in­di­fe­ren­tes a ele, gi­gan­te que se pos­ta em fren­te. Ob­ser­va. A qual­quer mo­men­to, o tra­ba­lha­dor que ia à di­an­tei­ra po­de­ria ca­ir com ta­ma­nho pe­so às cos­tas. Se­guia cam­ba­le­an­te, mas não atra­pa­lha o mo­vi­men­to dos ou­tros pe­la areia quen­te, in­di­fe­ren­te à chu­va que se for­ma e vai cri­an­do co­res novas no céu. Azul... mil, in­fi­ni­tas. Na­da dis­so in­ter­fe­re na agi­ta­ção dos tra­ba­lha­do­res que se tor­na mais ve­loz e pre­ci­sa no fi­nal da tar­de. O tra­ba­lha­dor da fren­te ago­ra se fir­ma em um mon­te de ter­ra, es­co­ra a car­ga e, sem per­der a di­an­tei­ra, con­ti­nua gui­an­do nes­ta pe­que­na es­tra­da uma infinida­de... Co­man­da. Tra­ba­lha tam­bém. Al­guns gos­ta­ri­am de pa­rar, des­can­sar O cor­po do­lo­ri­do de lon­gas ca­mi­nha­das, mes­mo sa­ben­do que se a chu­va que se anun­cia des­mo­ro­nar os ca­mi­nhos, aí sim o tra­ba­lho do­bra­rá. As­sim, o que to­ma a di­an­tei­ra pou­co se pre­o­cu­pa com o que es­tá acon­te­cen­do à sua vol­ta. O que pre­o­cu­pa mes­mo é a car­ga pe­sa­da que ba­lan­ça ao so­pro de qual­quer gol­pe de ar. A for­mi­ga lí­der se­gue sem me­do de som­bras re­ais e gi­gan­tes­cas de Jacinto, que se con­tor­cem na es­tra­da. A bo­ta di­rei­ta de Ja­cin­to: o ob­stá­cu­lo que se in­ter­põe. Um pé em­bo­ti­na­do que, por se­gun­dos, di­fi­cul­ta. Em fi­la, cro­no­me­tra­das por um per­fei­to e pon­tu­al relógio que não ba­te as ho­ras: es­se sol que cla­reia a es­tra­da de ter­ra ba­ti­da, tri­lha­da na la­bu­ta, es­tra­da som­bre­a­da. Sol que se ras­ga em fi­os por en­tre cer­ca de ga­lhos, de er­vas da­ni­nhas que, pen­sa a lí­der, não ser­vem co­mo ali­men­ta­ção. Ca­mi­nha. Com o pe­so fa­ti­gan­te, à di­rei­ta ou à esquer­da, a vi­são é sem­pre a mes­ma. Pa­rar não, de­ve pen­sar, sem ter tem­po pa­ra brin­ca­dei­ras, pois só o tra­ba­lho é im­por­tan­te. Sem tro­car fra­ses, ab­sor­ta no ali­men­to que car­re­ga, não ri­ria, tam­bém não fi­ca­ria tris­te, so­men­te se­gui­ria seus pas­sos sem atra­sar os ou­tros. Pen­sa: um obstácu­lo que sur­ja na fren­te e que por­ven­tu­ra oca­si­o­ne mor­tos, as que re­to­mam de­vem cum­prir ra­pi­da­men­te es­sa ta­re­fa e, sem cho­rar os ca­dá­ve­res, ti­rá-los pa­ra o la­do à mar­gem da es­tra­da e ama­du­re­cer o cor­po pa­ra no­vas lu­tas. Ima­gi­na: no fim da tar­de o tra­ba­lho fin­da. De­ze­nas de corpos que fi­ca­ram lá em ci­ma es­tão à es­pe­ra de que a chu­va que co­me­ça ar­ras­te os seus cadáve­res por en­xur­ra­das pe­que­nas, mais na fren­te se avo­lu­ma, e que os cor­pos de­sa­pa­re­çam nas cor­re­dei­ras do rio, em di­re­ção de pei­xes ne­gros, ama­re­los e fa­min­tos. Ou­tras for­mi­gas apres­sa­das pe­la noi­te que se apro­xi­ma nem pa­ram no lo­cal on­de ja­zem os cor­pos. Cho­ve. Chu­va fi­na, mo­lhen­ta. Ja­cin­to ti­ra o pé que se apoia no ara­me far­pa­do e pi­sa, trai­ço­ei­ro, es­pa­lhan­do as re­tar­da­tá­ri­as tra­ba­lha­dei­ras, es­ma­gan­do mui­tas com a so­la da bo­ti­na. Uma, mais afoi­ta, defensiva, pu­la na sua per­na, e afer­roa do­lo­ri­do. Ele pe­ga a for­mi­ga en­tre de­dos e ar­ran­ca as suas pa­tas, a ca­be­ça, e jo­ga o res­to do cor­po ao chão mo­lha­do, e ela pu­la com de­se­jos incontrolá­veis de vi­da. Ja­cin­to sen­te, ago­ra, o mes­mo ins­tin­to de so­bre­vi­ver. Se­gu­ra for­te o bra­ço da mãe, es­que­cen­do as lem­bran­ças, os re­mor­sos, os so­nhos im­pos­sí­veis, com os olhos sem traje­tó­ria e sem sen­ti­dos. Quan­do o pri­mei­ro ves­tí­gio bran­co da en­fer­mei­ra atra­ves­sou a por­ta e se in­crus­tou nas re­ti­nas da mãe de Ja­cin­to, o úl­ti­mo fio da vi­da de­le des­ceu pe­la ca­dei­ra, não passeou pe­lo cor­re­dor do hos­pi­tal, fu­giu da fi­la do ba­nhei­ro e se es­pa­lhou em gran­de quan­ti­da­de pe­lo as­so­a­lho da sa­la. Sem gri­to de dor, Ja­cin­to deu o der­ra­dei­ro sus­pi­ro com na­tu­ra­li­da­de e aper­tou com mais for­ça o bra­ço gor­do que o en­vol­ve. Afrou­xou pou­co a pou­co, dei­xan­do mar­cas ro­xas que se lim­pa­ram em mo­men­tos, de­sa­pa­re­cen­do na fla­ci­dez da gor­du­ra do bra­ço ma­ter­no. A mãe le­van­tou-se e er­gue Ja­cin­to nos bra­ços, com es­for­ço, e o car­re­ga com di­fi­cul­da­de em direção à sa­í­da. Um cor­po frá­gil, in­sen­sí­vel, sem vi­da, frio. A mo­ça da re­cep­ção se so­bres­sal­ta e diz:


— Do­na, vol­ta!


Ela na­da res­pon­de e nem se vol­ta. Sai à rua e o im­pac­to do sol en­tra em seus olhos, ilu­mi­na o ves­ti­do azul e pe­ne­tra em seu co­ra­ção, ex­plo­din­do-o.




*Ronaldo Cagiano é escritor.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A mais perfeita tradução


RONIWALTER JATOBÁ, pioneiro no Brasil em tratar do proletariado, ganha antologia de contos

Marcio Renato dos Santos • Curitiba – PR Rascunho 115, novembro de 2009


Roniwalter Jatobá, desde 1976 a publicar livros, foi o pioneiro no Brasil a problematizar literariamente o proletariado. O escritor mineiro, que viveu na Bahia, hoje radicado em São Paulo, teve olhos para ver, percepção para sentir, raciocínio para concatenar e disciplina para escrever, e reescrever, a respeito daqueles que, em geral, não passam de estatística, mero número.
Jatobá deu voz aos que, mesmo que fossem convocados, possivelmente não teriam discurso.
Os contos, em especial os selecionados por Luiz Ruffato para a edição destes Contos antológicos, funcionam individualmente e também em conjunto.
Jatobá, com um olho na realidade, onde buscou o material, matéria-prima para a ficção, e outro olho na tradição, leitor que sempre foi (e é) do legado literário, enfim, Jatobá conseguiu elaborar uma possível síntese do que pode ser a trajetória daqueles que estão condenados a viver: ele fala, e escreve sobre, os pobres que, em sua maioria, migraram de rincões brasileiros rumo a grandes centros.
Os personagens elaborados por esse mineiro-universal têm apenas nomes, nenhum sobrenome. Eles, os personagens, são muitos, são Zélia, Jacinto, Zefim, Santina, Tonico, Zuleide, Germano, Damião etc. Todos, sem exceção, funcionam como mão-de-obra barata. Não tiveram oportunidade de estudar. Dedicam, então, pelo menos, oito horas por dia a trabalhos embrutecedores, dentro de montadoras de automóveis, fábricas, empresas, lojas, casas (são domésticas, contínuos, moços e moças de recado), todos enfim atuam em funções (isso quando conseguem um emprego) em que os humanos não podem imprimir, registrar, as suas marcas, pegadas, de humanos que são.

Outra Paulicéia
O conto A mão esquerda, um clássico, e antológico, conto de Roniwalter, diz muito sobre a visão de mundo dele, e revela o ponto central de seu projeto literário. Natanael, filho de Elias e Marta, o protagonista da breve narrativa, nasceu em uma pequena e interiorana cidade e migrou rumo a São Paulo, palco de muitos dos contos de Jatobá. Conseguiu um emprego que garante apenas o salário para pagar as despesas e necessidades mínimas. Ele perderá dedos de uma das mãos durante a jornada de trabalho. Natanael escreve e envia cartas para a família fantasiando que, na grande cidade, tem uma vida digna, mas a sua realidade não passa de inferno permanente.
Os personagens da literatura de Jatobá, Natanael de A mão esquerda é apenas um deles, trocam a energia por salários indignos, pois não têm outra opção. Nenhum desses seres ficcionais, a exemplo de muitos da realidade, consegue nem jamais conseguirá economizar dinheiro para investir em qualquer projeto, bem pessoal ou patrimônio. As necessidades mínimas já consomem tudo o que eles recebem. Comida, transporte e inesperado "ceifam" todo o "tudo" que eles ganham.
Jatobá inventou uma ficção, mais do que particular, necessária, porque reflete o andar de baixo, "misteriosamente" quase invisível na malha literária brasileira. O texto não é panfletário, e bem que poderia ser, nem faz denúncia, e isso seria perfeitamente compreensível, e necessário. Antes, trata-se de arte.
Os personagens, condenados à vida, como o próprio autor escreve, estão inseridos em ambiente e contexto inóspitos. Nasceram pobres, não terão direito a estudo, nem a relações com pessoas que poderão abrir portas e oferecer oportunidades. Esses seres serão obrigados a morar em casas minúsculas, na periferia, distantes do local de trabalho. Sonadas, como muitas delas aparecem na ficção de Jatobá, atravessarão o dia com sono, pois não podem deixar o corpo deitado por muito tempo em cima de um colchão de péssima qualidade, sobre uma cama, em um subúrbio qualquer.
O receio de vir a ser demitido, que é uma questão constante para quem faz parte de classe pouco favorecida economicamente falando, é tema de mais de um conto. Jatobá conseguiu captar nuances de quem faz parte dessas castas condenadas à vida.
A ficção de Jatobá traduz, para o leitor, a sensação daqueles para quem viver é apenas sofrer, passar a maior parte da existência dentro de fábricas, barracões, ônibus, com apenas um dia de folga por semana, sem opção de lazer, o bar da rua do bairro, a eterna tentativa de ganhar o prêmio da loteria, para mudar a sorte, o azar, que é ter nascido pobre em um país como o Brasil, onde poucos desfrutam (por quanto tempo ainda?) de um bem-estar que não é bem nem estar.

o autor
RONIWALTER JATOBÁ nasceu em Campanário (MG), em 1949. Aos dez anos, mudou-se para o sertão da Bahia. Na década de 70, já vivendo no estado de São Paulo, trabalhou como operário e jornalista. É autor de Sabor de química, O jovem Che Guevara, O jovem JK e Paragens, entre outros.


trecho
• Contos antológicos
"De noite, eu vigiando, o frio entrando no corpo, doendo por dentro da farda e no alojamento o roncar de cem bocas só esperando o chamado das quatro horas. Os caminhões encostados roncando, se aquecendo, o motorista lá dentro, de vidros fechados só esperando os homens subirem na carroceria pra começar a viagem, uns pra mais perto, outros pra mais longe, pra todos o mesmo serviço. A cidade se despertando e já encontrando os homens seguros em cavadores, enxadas, pás, quebrando o asfalto, arrancando a terra das ruas, limpando bueiros." (do conto Alojamento)

Contos antológicos
Roniwalter Jatobá
Org.: Luiz Ruffato
Nova Alexandria
176 págs.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Relatos da condição humana


Antologias de Roniwalter Jatobá e Jorge Miguel Marinho apresentam tema em comum
Henrique Marques - Samyn*
Jornal do Brasil, 10 de outubro de 2009



A Nova Alexandria tem publicado, em sua coleção Obras Antológicas, coletâneas de alguns autores representativos. Os volumes editados até o momento são assinados por nomes como Silviano Santiago, Domingos Pellegrini e Solano Trindade – este, o único poeta numa série de livros que vem privilegiando a narrativa curta. Seguindo essa tendência, dois reconhecidos cultores do gênero têm seus textos reunidos em antologias incorporadas à coleção: Roniwalter Jatobá e Jorge Miguel Marinho.
Mineiro radicado em São Paulo desde 1970, Jatobá inicia sua trajetória literária com Sabor de química (1977); é ele quem “praticamente instaura a literatura proletária brasileira”, como enfatiza Luiz Ruffato, organizador e prefaciador dos Contos antológicos de Roniwalter Jatobá. Já os textos de Jorge Miguel Marinho, carioca também radicado em São Paulo que alcança destaque sobretudo a partir de Escarcéu dos corpos (1984), são comumente aproximados da literatura fantástica – rótulo que, ainda que não de todo improcedente, pode suscitar leituras reducionistas que ofuscam a riqueza lírica e temática de sua obra. De fato, uma leitura mais aprofundada revela que as produções literárias de Jatobá e Marinho não são propriamente opostas – e têm em comum o essencial da melhor literatura.
O texto de Roniwalter Jatobá, construído predominantemente por frases curtas, reflete na forma a matéria de seu lirismo: assim como sua dicção é algo fragmentária, repleta de rupturas que acentuam o tom seco e duro que perpassa a narrativa, os contos enfocam vidas quase sempre despedaçadas pela pobreza, esmagadas pelo árduo trabalho que reduz as pessoas à sua força produtiva. É justamente por construir sua obra a partir desse cenário tão asfixiante, mas sem ceder à opção de tecer uma narrativa que, aderindo a ele, reduza-se a espelhá-lo – o que decerto produziria o gesto pleonástico que, embora denunciador, tende ao estereótipo – que a literatura de Roniwalter Jatobá é prenhe de humanismo: seus personagens sempre resistem, de algum modo, à reificação; são figuras que, conquanto dilaceradas, orientam-se pela busca de uma dignidade que, embora não raro pareça inalcançável, sabem fazer parte de si. A imagem do trabalhador pobre, deslocado em meio à massa urbana, é representativa do tipo de questionamento que motiva o escritor: embora seja ele, o trabalhador, um dos principais responsáveis por mover a colossal máquina urbana, essa em reação o esmaga e asfixia, reduzindo-o a uma espécie de fantasma – a uma criatura anômala e anônima à qual se impõe o desafio de resgatar sua própria humanidade. As muitas formas dessa luta, não raro trágica, constituem a matéria bruta da qual Roniwalter Jatobá extrai o lirismo de seu contos, cuja qualidade é bem representada pela seleção de Ruffato.
A compaixão é uma marca do texto de Jatobá

À seca dicção de Jatobá contrapõe-se o texto de Jorge Miguel Marinho: encontramos um descritivismo que, não raro, remete ao barroco; excesso que em momento algum tangencia o preciosismo, servindo por outro lado a propósitos estéticos muito definidos. O mundo que emerge nos contos de Marinho, como demonstram os presentes em seus Contos antológicos, usualmente não obedece aos parâmetros naturalistas predominantes na literatura brasileira; verifica-se frequentemente um desvio que, ao instaurar o fantástico, desmascara arbitrariedades e mecanismos de poder que subrepticiamente operam no cotidiano. Nem sempre ressaltado, esse aspecto da obra de Jorge Miguel Marinho revela um autor fortemente político; em sua literatura, o elemento fantástico não surge como um fim, mas como um instrumento empregado para a construção de alegorias. Em outras palavras: no texto de Marinho, a fantasia não constitui uma negação do real, sendo de fato uma forma de reafirmá-lo em seus contrastes – sobretudo no que tange à sociedade, cujas fraturas são assim denunciadas. Perceba-se, a propósito, que essa é uma literatura em que o “desviante” – ou seja, aquele que sofre a ação do fantástico – comumente o é num sentido social, seja por sua posição à margem, seja pelo desafio que representa a algum tipo de norma; desse modo, a inversão do mundo apenas explicita uma inversão da ordem que a antecede.
Nenhum tour de force é, portanto, necessário para aproximar a obra de Roniwalter Jatobá dos textos de Jorge Miguel Marinho. Embora, à primeira vista, de um cotejo entre suas escritas possam emergir apenas as diferenças, o que os aproxima é algo muito mais fundamental: a profunda empatia com que se dedicam a tematizar a condição humana. A compaixão do texto de Marinho surge também na obra de Jatobá; as marginais figuras que povoam as páginas de Jatobá fazem-se igualmente presentes nos contos de Marinho – semelhanças que decorrem de uma preocupação humanista seminal em ambas as obras. Se, em última instância, é esse o tema de toda a grande literatura, não há dúvidas de que estamos aqui diante de dois grandes escritores.
* Henrique Marques - Samyn é doutorando em literatura comparada e autorde Esparsa poética (poemas)

sábado, 26 de setembro de 2009

Jatobá, para crianças de todos os tempos


Assis Ângelo

Adorei. Há tempo eu não lia um livro infanto-juvenil, isto é, dirigido ao público infanto-juvenil, tão bonito quanto esse “Viagem ao Outro Lado do Mundo”, chancelado pela Editora Positivo e de autoria do mineiro de Campanário nascido em 49 Roniwalter Jatobá, também autor de livros importantes para a bibliografia brasileira, como A Crise do Regime Militar (Ática; 1997), O Jovem Luiz Gonzaga (Nova Alexandria; 2009) e tantos.Roniwalter é uma antena aguda e sensibilíssima do Brasil. Sua sensibilidade ajuda a nos mostrar a grandeza deste País, seja através de seus contos desenvolvidos quase sempre com base no Real, seja através das histórias que busca sob o tapete da poeira do tempo a realidade do Brasil.No que faz, Roniwalter é dos poucos.Ele sabe o que diz.E por saber o que diz Roniwalter conta nesse novo livro uma história simples para um público simples e em formação. O autor fala de São Paulo, a cidade. O autor, madeira de lei, fala do Metrô da cidade de São Paulo, do seu ruge-ruge e do ruge-ruge da cidade grande, e não de uma cidade grande qualquer, mas da 5ª maior cidade do mundo, que é São Paulo.“Viagem ao Outro Lado do Mundo” se desenvolve de maneira tão natural; tão natural que fica, no correr da leitura, difícil até de acreditar que uma história tão banal, comum, tenha sido escrita por um autor do tamanho de Roniwalter.Humilde, o grande escritor Roniwalter Jatobá desce do pedestal para contar o caso de um menino que é premiado pelo pai para conhecer São Paulo. O menino dorme pouco, esperando o dia chegar.A mãe prepara os detalhes, roupas etc.E o menino se perde, quando chega a Sampa. E se perde logo no Metrô, que hoje transporta 3,5 milhões de pessoas e muito mais de pensamentos, sonhos e dramas.Como é bonito o novo livro de Roniwalter!O autor mostra a solidariedade dos meninos de rua...Chega! Não vou falar mais. Saiam correndo, vão comprar ”Viagem ao Outro Lado do Mundo”. Presenteiem-no.Vale a pena.