sábado, 22 de setembro de 2012

Almas múltiplas

*Valdomiro Santana
 
       O e outras histórias poderia ter sido dispensado, porque fica claro que Cheiro de chocolate — um sintagma forte, por causa da sensação olfativa imediata e prazerosa — é a narrativa-título do livro. Ou o conto-título. Ou a história-título. Aqui você paga tributo a seu segundo livro: Ciriaco Martins e outras histórias.
       Na folha de rosto, sim, poderia, e deveria, se o título fosse Cheiro de chocolate, aparecer: ou Histórias, ou Contos, ou Crônicas, ou Contos e Crônicas, ou (o que talvez fosse mais apropriado) Narrativas. Ou nada disso: o leitor chamaria os textos como bem quisesse. A ficha catalográfica o classifica como um livro do gênero conto e ainda o identifica: conto brasileiro.
       Mas vamos ao que na verdade importa: como li o livro. E vou começar me referindo a outro livro seu, Tiziu. Se você não tivesse experimentado a despersonalização do protagonista, o triste fim dele, não teria escrito essa novela. Quando terminou de escrevê-la, você não era mais o mesmo Roni de quando a começou. A literatura muda-nos. Tiziu é o livro mais profundamente triste que já escreveu. Começa com a derrota do protagonista; um dos signos dessa derrota é o caco de espelho em que ele se vê no guarda-roupa da pobre e feia pensão em que morava no Brás. Um homem por dentro partido. Essa derrota só faz empurrá-lo para consumar a destruição, o fim de vida, ao voltar para a roça. Partido, mutilado, aposentado por invalidez. É bem esse mesmo o diagnóstico: inválido (não valer mais nada), depois de ter São Paulo sugado todas as suas forças e até comido parte de seu corpo. Um caco.
       Falei acima em experimentação, sensação, e ressaltei a força da expressão “cheiro de chocolate”. Estímulo olfativo que o cérebro reconhece como tão agradável. Pois é fato que o gosto de chocolate, tão íntimo do cheiro, desencadeia mil reações prazerosas no cérebro, acende-o, ativa-o. E deste que é seu livro mais recente volto ao primeiro: Sabor de química. A expressão é também um sintagma lexical. Fiz uma ponte entre os dois — “de chocolate” e “de química” são os determinantes de cheiro e de sabor. Digamos, duas margens: numa, o sabor, na outra, o cheiro. O que importa é o que está no meio. Experimentar esse jogo sensorial que flui. A palavra “química” tem a acepção clara de veneno, quando se lê o conto-título. E veneno remete logo ao que é cancerígeno. Trabalhar na fábrica de química é correr o risco de contrair câncer. Diz o protagonista (cito de memória), ao sentir o desdém e até o nojo das pessoas que antes o consideravam e agora dele se afastam): “Faz mal não, cuspo o meu câncer nos seus pés”.
   
  CONJUNTO DE SIGNOS
 
        Quatro registros (ou conjuntos de signos):
        1. São Paulo: fedor, veneno, câncer, morte.
        2. São Paulo: mutilação, invalidez, desesperança, loucura. A volta de Tiziu para a roça é a volta para o vazio em si mesmo, irremissível, para o que há muito já está perdido, o rural-arcaico que a moderna era industrial-urbana transformou em cacos, desolação.
        3. São Paulo: cheiros. Os surpreendentes cheiros que o cheiro de chocolate ressuscita — “o de café socado no pilão e coado na hora, o da cana de açúcar, do melado da garapa e o da rapadura”. A reminiscência visualmente nítida do “borbulhar da rapadura já quase sólida nos tachos de cobre”. É uma crônica. Belo diálogo, belo jogo intertextual, com a crônica “O funileiro”, de Rubem Braga, em que há também cheiros da infância, de doces em tachos, forte lembrança das mãos que areavam esses tachos e já secaram, mortas. Ainda que a emoção lírica de “Cheiro de chocolate” seja entulhada pelo relato de uma pesquisa nos EUA sobre cheiros agradáveis e cheiros desagradáveis. Mas, quando essa emoção já parece perdida, no último parágrafo ela ressurge para deflagrar na memória outros cheiros: manga madura, terra molhada de chuva, água em queda da cachoeira e o corpo da primeira namorada, Clarice. Esse nome é um signo de outro sentido, o da visão, o que na imagem-lembrança está vivo, claro. Clarice: a que sempre cheirava a alecrim do campo. Note a força da palavra “caminho”, reiterada em sua crônica e, no plural, “caminhos”, na crônica do Braga.
        4. São Paulo: desterritorialização/reterritorialização no tempo e no espaço com o conto “Amor antigo”, que já comentei, o primeiro lido. Antes de continuar esta leitura: “Eu, Filipe” foge ao que poderíamos chamar de unidade temática do livro. Só você pode responder: o que significa aqui, na sequência dos textos, a recriação de momentos da vida desse apóstolo de Cristo?
       Os dois primeiros registros são equivalentes. Duas faces simétricas da fábrica de perversidades que é SP: quando não mata, aleija. Não se trata de dizer que SP é cruel. Toda cidade o é. E quando se volta ao burgo natal, este não é mais o que era. Não há mais referências. Por isso toda volta é triste, e pode ser até trágica. Não há paraíso; ou, como já foi dito, paraíso é sempre o que se perdeu. Os dois momentos mais altos do livro são, a meu ver, “Amor antigo” (registro 4), por causa do que eu já lhe disse, e a narrativa-título (registro 3): ambos captam as diferentes cidades que existem dentro de SP.   
       Quem leu seus outros livros e bem se lembra do primeiro, perceberá uma distância infinita em relação a Cheiro de chocolate e outras histórias. Só neste são possíveis textos como “Observador de pássaros” e “A flor do meu bairro”, os dois outros momentos que permitem dizer: SP também é isso. Conta, e muito, o tempo de 36 anos que medeia entre o primeiro livro e este. Lá atrás, naqueles contos, a sensação de SP pesada, saturada de venenos, um molde. Agora, a rarefação de tudo, uma sensação de modulação. Não que a cidade tivesse se humanizado, mas a leitura deixa entrever que o leitor daquele livro e o deste, tanto quanto você, o autor, é uma pessoa feita de muitas almas.
       Afinal, reconhecer os muitos pedaços de SP não deixa de ser a experimentação do sentimento de pertencer a eles. E também, em meio ao que é a megalópole, a tantos acontecimentos intensamente vividos, aqui e ali sentir que certos registros humildes e esquecidos, uma flor, um pássaro, já são, e docemente, coisas suas, de você, o autor, e do leitor. E esse sentimento, essa emoção, é o que o livro passa. Foi com leveza d'alma que o li.
 
  *Jornalista, mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), Valdomiro Santana é autor dos livros O dia do Juízo (contos, 1986), Literatura baiana 1920-1980 (1986; 2ª edição revista e Ampliada, 2009) e Pastelaria Triunfo (crônicas, 2005). Organizou e prefaciou as antologias O conto baiano contemporâneo (1995) e Os melhores contos de Wander Piroli (1996).

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