terça-feira, 10 de novembro de 2009

A mais perfeita tradução


RONIWALTER JATOBÁ, pioneiro no Brasil em tratar do proletariado, ganha antologia de contos

Marcio Renato dos Santos • Curitiba – PR Rascunho 115, novembro de 2009


Roniwalter Jatobá, desde 1976 a publicar livros, foi o pioneiro no Brasil a problematizar literariamente o proletariado. O escritor mineiro, que viveu na Bahia, hoje radicado em São Paulo, teve olhos para ver, percepção para sentir, raciocínio para concatenar e disciplina para escrever, e reescrever, a respeito daqueles que, em geral, não passam de estatística, mero número.
Jatobá deu voz aos que, mesmo que fossem convocados, possivelmente não teriam discurso.
Os contos, em especial os selecionados por Luiz Ruffato para a edição destes Contos antológicos, funcionam individualmente e também em conjunto.
Jatobá, com um olho na realidade, onde buscou o material, matéria-prima para a ficção, e outro olho na tradição, leitor que sempre foi (e é) do legado literário, enfim, Jatobá conseguiu elaborar uma possível síntese do que pode ser a trajetória daqueles que estão condenados a viver: ele fala, e escreve sobre, os pobres que, em sua maioria, migraram de rincões brasileiros rumo a grandes centros.
Os personagens elaborados por esse mineiro-universal têm apenas nomes, nenhum sobrenome. Eles, os personagens, são muitos, são Zélia, Jacinto, Zefim, Santina, Tonico, Zuleide, Germano, Damião etc. Todos, sem exceção, funcionam como mão-de-obra barata. Não tiveram oportunidade de estudar. Dedicam, então, pelo menos, oito horas por dia a trabalhos embrutecedores, dentro de montadoras de automóveis, fábricas, empresas, lojas, casas (são domésticas, contínuos, moços e moças de recado), todos enfim atuam em funções (isso quando conseguem um emprego) em que os humanos não podem imprimir, registrar, as suas marcas, pegadas, de humanos que são.

Outra Paulicéia
O conto A mão esquerda, um clássico, e antológico, conto de Roniwalter, diz muito sobre a visão de mundo dele, e revela o ponto central de seu projeto literário. Natanael, filho de Elias e Marta, o protagonista da breve narrativa, nasceu em uma pequena e interiorana cidade e migrou rumo a São Paulo, palco de muitos dos contos de Jatobá. Conseguiu um emprego que garante apenas o salário para pagar as despesas e necessidades mínimas. Ele perderá dedos de uma das mãos durante a jornada de trabalho. Natanael escreve e envia cartas para a família fantasiando que, na grande cidade, tem uma vida digna, mas a sua realidade não passa de inferno permanente.
Os personagens da literatura de Jatobá, Natanael de A mão esquerda é apenas um deles, trocam a energia por salários indignos, pois não têm outra opção. Nenhum desses seres ficcionais, a exemplo de muitos da realidade, consegue nem jamais conseguirá economizar dinheiro para investir em qualquer projeto, bem pessoal ou patrimônio. As necessidades mínimas já consomem tudo o que eles recebem. Comida, transporte e inesperado "ceifam" todo o "tudo" que eles ganham.
Jatobá inventou uma ficção, mais do que particular, necessária, porque reflete o andar de baixo, "misteriosamente" quase invisível na malha literária brasileira. O texto não é panfletário, e bem que poderia ser, nem faz denúncia, e isso seria perfeitamente compreensível, e necessário. Antes, trata-se de arte.
Os personagens, condenados à vida, como o próprio autor escreve, estão inseridos em ambiente e contexto inóspitos. Nasceram pobres, não terão direito a estudo, nem a relações com pessoas que poderão abrir portas e oferecer oportunidades. Esses seres serão obrigados a morar em casas minúsculas, na periferia, distantes do local de trabalho. Sonadas, como muitas delas aparecem na ficção de Jatobá, atravessarão o dia com sono, pois não podem deixar o corpo deitado por muito tempo em cima de um colchão de péssima qualidade, sobre uma cama, em um subúrbio qualquer.
O receio de vir a ser demitido, que é uma questão constante para quem faz parte de classe pouco favorecida economicamente falando, é tema de mais de um conto. Jatobá conseguiu captar nuances de quem faz parte dessas castas condenadas à vida.
A ficção de Jatobá traduz, para o leitor, a sensação daqueles para quem viver é apenas sofrer, passar a maior parte da existência dentro de fábricas, barracões, ônibus, com apenas um dia de folga por semana, sem opção de lazer, o bar da rua do bairro, a eterna tentativa de ganhar o prêmio da loteria, para mudar a sorte, o azar, que é ter nascido pobre em um país como o Brasil, onde poucos desfrutam (por quanto tempo ainda?) de um bem-estar que não é bem nem estar.

o autor
RONIWALTER JATOBÁ nasceu em Campanário (MG), em 1949. Aos dez anos, mudou-se para o sertão da Bahia. Na década de 70, já vivendo no estado de São Paulo, trabalhou como operário e jornalista. É autor de Sabor de química, O jovem Che Guevara, O jovem JK e Paragens, entre outros.


trecho
• Contos antológicos
"De noite, eu vigiando, o frio entrando no corpo, doendo por dentro da farda e no alojamento o roncar de cem bocas só esperando o chamado das quatro horas. Os caminhões encostados roncando, se aquecendo, o motorista lá dentro, de vidros fechados só esperando os homens subirem na carroceria pra começar a viagem, uns pra mais perto, outros pra mais longe, pra todos o mesmo serviço. A cidade se despertando e já encontrando os homens seguros em cavadores, enxadas, pás, quebrando o asfalto, arrancando a terra das ruas, limpando bueiros." (do conto Alojamento)

Contos antológicos
Roniwalter Jatobá
Org.: Luiz Ruffato
Nova Alexandria
176 págs.

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